domingo, 15 de abril de 2012

A NOVA GEOGRAFIA DO VOTO

A classe C e a política
Gaudêncio Torquato  (*)
Se a bola de cristal é o objeto de desejo dos atores políticos em ano eleitoral, que procuram saber se seu futuro será venturoso ou inglório, imagine-se a importância que sobre ela se deposita quando o País se prepara para remodelar toda a base de seu edifício político sob a égide de dois fenômenos: a mudança na composição demográfica e a nova geografia do voto. No lugar ocupado outrora por ciganas adivinhas, que em tempos bucólicos tomavam as praças das cidades para mostrar aos transeuntes as pistas do amanhã, temos hoje as pesquisas de opinião. São essas as modernas bolas de cristal que procuram identificar posições alcançadas por candidatos e alçadas administrativas no sistema de avaliação social. Elas serão, nos meses a seguir, a maior atração dos habitantes do planeta eleitoral, ansiosos para conhecer suas chances de vitória no pleito que mobilizará a população de 5.564 municípios.
As sondagens, como se sabe, flagram percepções momentâneas, sendo tarefa complexa e muitas vezes incontornável distinguir a intensidade e a direção das emoções humanas. Faz-se a ressalva para aduzir que as eleições de outubro, a par de fatores imprevisíveis que costumam desmontar visões e projeções, ocorrerão na sombra de misteriosa indagação: qual é o pensamento político da classe C?
Antes de enveredar pela trilha, convém pinçar dados que realçam a força desse grupamento, a começar pela lembrança de que a classe C absorveu nos últimos anos cerca de 40 milhões de brasileiros, chegando à soma de 53% da população e devendo alcançar os 60% em 2014. A transformação efetiva da pirâmide social em losango, com as camadas médias passando a ser maiores que as de baixo e as de cima, implica alteração substantiva na geografia eleitoral? A ascensão de uma classe na escada social muda sua visão da política? Ou, ainda, o voto do eleitor será influenciado pela conquista de renda superior à que detinha na eleição anterior?
Eventuais respostas começam pela relação entre os avanços alcançados pela classe C e as novas atitudes que passou a tomar. A principal conquista deu-se no plano da renda. A radiografia mostra que cerca de 105 milhões de brasileiros alçaram ao patamar do poder de compra, dado que tem servido para planejar o sistema de vendas. A partir daí se fotografou um corpo social mais otimista que outros, mais aberto ao circuito dos amigos, mais fiel às marcas do mercado, mais seletivo, objetivo e descomplicado.
Revelações interessantes pipocam. Na classe C os formadores de opinião, ao contrário do que ocorre em outras, não são os mais velhos ou os mais experientes, mas os jovens, que estão bem empregados, são bem-educados e conectados ao mundo. São eles que mostram a realidade aos pais. Outra faceta interessante, segundo o pesquisador Renato Meirelles, é o fato de que os emergentes procuram autenticidade. Se a velha sociologia pregava que o sonho recorrente de uma classe era ascender à posição da classe acima, o paradigma agora é outro. Os componentes da nova classe fazem ácidas críticas aos gastos e comportamentos perdulários dos habitantes dos andares de cima. Os ricos, para eles, não são exemplo de vida. Qual é sua aspiração? Quem os motiva é o perfil que veio de baixo, lutou, conseguiu, alçou voo e hoje realiza seu sonho com seu negócio.
Onde está a nova classe? O Sudeste abriga o maior contingente, com 48,2%, vindo o Nordeste na sequência, com 22,6%, e o Sul, em terceiro, com 17,4%. As três regiões contam com 93 milhões de habitantes. Outra abordagem para medir a força do contingente é o gasto com consumo: em 2009 a classe C (renda familiar entre R$ 1.200 e R$ 4.900) gastou R$ 881 bilhões do total de R$ 2,2 trilhões do País. O salto na área educacional também impressiona: entre 2002 e 2010 os eleitores de nível universitário dessa classe saltaram de 6 milhões para mais de 9 milhões, devendo chegar aos 11 milhões em 2014; na área do ensino médio, os 48 milhões de eleitores do ano passado passarão a 52 milhões em 2014. Saltos, avanços, melhoria de padrão de vida sinalizam maiores exigências na esfera da representação política? Essa é a pergunta que movimentará as bolas de cristal, cada vez mais escassas nos terreiros eleitorais. Vamos às pistas. A alma do eleitor do "Brasil da distribuição de renda e do acesso ao crédito" continua conservadora, fiel aos ritos religiosos, éticos e normativos. É, porém, mais exigente: quer do Estado serviços mais qualificados, a partir da saúde, segurança e educação.
Outra indicação: cultiva o amor à região que o abriga. Por conseguinte, suas necessidades passam pelas demandas do mundo que habita. Seu bairro é o centro das atenções. As questões abrangentes da metrópole soam como abstrações aos ouvidos do eleitor encastelado em sua célula. O cidadão da classe C quer ver o candidato, olho no olho, com soluções claras, simples, factíveis para os setores que afetam seu cotidiano. Os laços de família, a tradição religiosa (os cultos expandem-se na paisagem urbana), os hábitos da região vão plasmando uma comunidade solidária, fraternal, exigente. Sob a perspectiva da política, é razoável supor afinação mais estreita com a representação próxima à causa comunitária. O discurso local vence a expressão global.
Mudou, sim, o tamanho do bolso da classe. E aqui é possível estabelecer uma conexão estreita entre renda e política. A hipótese é de que se forma uma nova geografia do voto, começando na região do bolso - que precisa ser bem suprido e, claro, preservado. A garantia de bolso cheio implica manutenção do status quo. Essa será a condição para a geladeira cheia de produtos. Que preservarão o instinto de sobrevivência, barriga satisfeita, segundo ponto na geografia eleitoral. Uma ponte de agradecimentos liga o estômago saciado ao coração, terceiro espaço geográfico. Culmina o processo com a mensagem que sai do coração para a cabeça. Daí sairá a decisão do voto. A rota, como vai acontecer na política, pode ter muitos desvios.  
(*) É jornalista, professor titular da USP, consultor político de comunicação, articulista do Estadão. TWITTER: @GAUDTORQUATO

Morre o antropólogo Gilberto Velho
Cientista social faleceu na madrugada de sábado, no Rio de Janeiro, vítima de um AVC

Otávio Magalhães/AE

Um dos cientistas sociais mais reconhecidos do País, o antropólogo Gilberto Velho, 66 anos, morreu na madrugada de sábado, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC), enquanto dormia em seu apartamento em Ipanema, na zona sul do Rio. Ele já vinha apresentando outros problemas de saúde, como cardiopatia. O corpo do antropólogo será velado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, onde será enterrado às 15h do domingo (15). Divorciado, ele não deixou filhos.

Considerado um inovador no estudo da Antropologia, principalmente por trazer questões urbanas para a disciplina, Velho escreveu e organizou 16 livros e publicou mais de 160 artigos em edições especializadas no Brasil e no exterior. Entre suas obras mais importantes, estão A Utopia Urbana: um estudo de antropologia social (1973), Projeto e Metamorfose: antropologia das sociedades complexas (1994) e Mudança, Crise e Violência: política e cultura no Brasil contemporâneo (2002).

Ele era decano do Departamento de Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1999 e se tornou, no ano seguinte, o primeiro antropólogo a se tornar membro da Academia Brasileira de Ciências. Graduado em Ciências Sociais pela UFRJ em 1968, Velho obteve o título de doutor na Universidade de São Paulo (USP) em 1975. Ele ainda cursou especialização em Antropologia Urbana e Sociedades Complexas no Departamento de Antropologia da Universidade do Texas.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

PREPARATIVO PARA REALIZAÇÃO DO FLIFLORESTA 2012, EM MAUÉS

         A cidade de Maués, considerada a Terra do Guaraná (267 km de Manaus), começa a se preparar para o Flifloresta 2012, encontro de incentivo à leitura e a escrita entre escritores e comunidade, que acontecerá em junho, no aniversário da cidade.

                           Nesta terceira edição do festival literário, a programação se inicia no dia 30 de Abril com a realização do VII FEIRARTE em homenagem ao Dia do Trabalho com a participação de dezenas de Escolas municipais e estaduais, reunindo milhares de alunos que desfilarão em homenagem a luta dos trabalhadores, encerrando o evento  literário com shows artísticos, exposição de artes plásticas e festival gastronômico com sabor da culinária local.

                             Neste dia será lançado o Projeto do III FESTIVAL DE NARRATIVAS , (prosa, verso e performance) em duas categorias e voltados a incentivar o surgimento de novos talentos e  o amadurecimento dos existentes com premiações variadas. 


                         Outra atividade que irá movimentar os circuitos culturais da cidade é o lançamento do Edital da II CONFERÊNCIA MUNICIPAL DE CULTURA, que tem como objetivo implantar o Sistema Municipal de Cultura, com leis específicas e estrutura de incentivo e apoio a diversidade, ao reconhecimento e preservação de nossa história e cultura popular.

                    Mais uma vez, Maués lidera pioneiramente na Amazônia a estruturação do Conselho Municipal de Cultura com o debate entre entes públicos e sociedade civil do Plano Municipal como peça fundamental para transformar a cultura em ferramenta de inclusão social.

                            Segundo o Prefeito Belexo, “Todo incentivo que dermos para se buscar o conhecimento, estaremos dando oportunidades de cidadania e conhecimentos de direitos e deveres de todos”.

                           O Secretário Xico Gruber, ele mesmo escritor com quatro livros publicados, diz que “o conhecimento é o nosso passaporte para se conhecer novos lugares, vivermos situações e conhecermos o mundo, sem sair de onde estamos e sem o risco de que alguém nos roube”.

MANAUS, UMA CIDADE SEM RUMO

Ellza Souza (*)

Na segunda-feira (10)  o povo amanheceu sem ônibus. Não que tivesse um dia. O transporte coletivo em Manaus é vergonhoso. Não atende a nenhuma necessidade. E em entrevista a um jornal da cidade, o prefeito em exercício, o juiz mais antigo anunciou que é apenas “uma nuvem passageira”. Ouvi também de uma passageira desesperançada que voltava para casa após a manhã inteira na parada apreciando o caos na avenida que  alguns moto táxis estão cobrando 10 reais para ir ao centro. Parece uma terra sem lei. 


Todos os políticos querem ser prefeitos mas nenhum faz o seu papel direito. Vergonhosamente o povo (e não é só o amazonense não) se deixa levar por propagandas enganosas e vota nos mesmos sem uma reflexão, sem um espírito de renovação, de buscar melhorias reais para a sociedade. Nas vésperas das eleições a televisão entra nas casas com as promessas de sempre:  viadutos, pontes, parques, aterros, arenas e isso enche os olhos da maioria. 

Quem não tem nada se contenta com cimento armado. O que interessa mesmo não está em pauta: educação de qualidade, saúde, bons profissionais em todas as áreas, transporte coletivo,  cuidado com o meio ambiente,  calçadas para o pedestre e não para ambulantes, ruas limpas, patrimônio histórico revitalizado. Por muito menos o povo se revoltou em outros lugares. 

Aqui mesmo em Manaus os estudantes já foram mais exigentes e mostravam aos governantes a sua insatisfação. Hoje, porém, somos excessivamente pacatos. Brigamos às vezes por nada e nos recolhemos no momento de manifestar a nossa indignação. E aí ficamos com os maus serviços públicos e a esculhambação geral. E tudo começa na hora de votar. Tá certo que os maus políticos confundem a opinião pública e não fornecem uma boa educação por não precisarem dela. Seus parentes estudam no exterior. Têm bolsa pra tudo. E para o eleitor bolsa esmola.


Precisamos acordar e votar nos menos ruins. Do jeito que vai vamos acabar com o planeta e com a espécie humana antes do propalado fim do mundo. Tá na cara.


Preciso ir ao centro e não tem como. De fusca o trânsito educado e sereno não permite. A pé não tem pé que agüente. Os ônibus estão parados por algum motivo. E o povo tem mil e um motivos para não votar na mesmice e acordar do sono em berço esplêndido. Acorda Manaus.

(*) É jornalista, escritora e articulista do NCPAM/UFAM.

Governo insiste em investimento total de 8% do PIB em educação, diz relator

Arquivo - Laycer Tomaz
Angelo Vanhoni
Para Vanhoni, o investimento total de 8%vai garantir uma revolução na qualidade da educação.
O relator do Plano Nacional de Educação (PNE - PL 8035/10), deputado Angelo Vanhoni (PT-PR), informou na terça-feira (11)  que o governo federal deverá insistir na meta de investimento total de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) no setor.
O valor é o mesmo apontado pelo próprio Vanhoni em sua proposta de substitutivo ao PNE, que trata dos objetivos da área para os próximos dez anos. A declaração foi dada após reunião fechada entre deputados ligados ao setor e o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
A meta inicial prevista na proposta do governo era de 7% de investimento direto na área. Os 8% de investimento total sugeridos por Vanhoni incluem recursos de bolsas de estudo e financiamento estudantil, além da contribuição previdenciária dos professores da ativa. Esse percentual corresponde a cerca de 7,5% de investimento público direto.
Hoje, União, estados e municípios aplicam, juntos, em torno de 5% do PIB em educação. Entidades ligadas ao setor pedem o investimento de pelo menos 10%, mas o governo alega falta de recursos disponíveis.
Para o relator, os 8% de investimento total são suficientes para garantir melhorias significativas para a área: “Estou absolutamente convencido de que esse valor vai garantir uma revolução na educação, tanto em termos de inclusão, como em termos de qualidade”.
Recursos insuficientes
A deputada Professora Dorinha Seabra Rezende (DEM-TO), no entanto, afirmou que os 7,5% de investimento direto são insuficientes e defendeu a aplicação de 10%. Segundo ela, no entanto, não houve espaço para negociação na reunião com Mantega: “O encontro foi cordial, mas não representou nenhum avanço”.
Para o presidente da comissão especial que analisa o PNE, deputado Lelo Coimbra (PMDB-ES), o encontro de hoje serviu ao menos para facilitar o debate entre os deputados. “A reunião com o ministro tirou a percepção de enfrentamento no âmbito político. Isso significa menos pontos de tensão”, avaliou.
O presidente da Comissão de Educação e Cultura, deputado Newton Lima (PT-SP), lembrou que uma nova lei poderá rever o valor definido no PNE, após cinco anos de vigência. “O importante é compatibilizar responsabilidade educacional com responsabilidade fiscal. Devemos avançar para combater nosso passivo educacional, mas sem colocar em risco a estabilidade econômica. O ministro foi claro ao dizer que, caso haja uma nova conjuntura econômica no futuro, os 8% poderão ser revistos para mais”, afirmou.
Caso o PNE seja aprovado com os 8% de investimento total, somente uma nova lei, com tramitação pelo Congresso, poderá rever esse valor.
Relatório final
Angelo Vanhoni apresentará seu relatório final sobre o PNE na próxima semana. Na terça-feira (17), o colegiado deverá se reunir para traçar um novo cronograma de trabalho, com datas prováveis de votação. Nenhum dos deputados presentes à reunião soube dizer, contudo, se há perspectiva de aprovação ou rejeição da proposta da forma como foi defendida pelo governo.

domingo, 8 de abril de 2012


IGARAPÉS DE ME...LANCOLIA

Ellza Souza (*)

        Subi a pé, a avenida Municipal, Fileto Pires ou 7 de Setembro onde existem três graciosas pontes que em algum momento de nossa esquecida história foram pontos de encontro, de passeios, de passagem de bonde. Nesse momento o bom mesmo era ficar pra lá e pra cá com a família apreciando os igarapés negros e limpos que escorriam ao redor do palácio Rio Negro. De um lado e do outro. No entanto o homem foi se instalando na beira desses pequenos rios que abundavam a nossa cidade. E as autoridades incentivando e deixando. Mesmo com o emporcalhamento que fizeram com essas águas nada se compara ao que vi esses dias sob tão graciosas passagens.

O aterro sufocou os igarapés, isso é fato. Casas e parques estão montados sobre eles. Agora não escorre mais água, manauenses ou manauaras, existe no local a céu aberto pra qualquer morador e visitante da cidade ver e sentir, uma robusta massa de excrementos humanos (foi a palavra mais suave para o que muitos seres humanos chamam de número dois), paralisada ali à vista de todos, pululando de micróbios e bactérias.

        Aterrar igarapés insanamente é aterrador, literalmente. Muita coisa poderia ter sido feita diferente dessa atitude tão equivocada. Mesmo enterrado há muito tempo o nosso igarapé do Espírito Santo onde hoje é a avenida Eduardo Ribeiro não morreu completamente e imagino que está esperando o momento certo para submergir. Me contaram que existe uma galeria ainda feita pelos ingleses (nem vou dizer o lugar senão algum “urbanista” moderno vai lá e dinamita o local para acabar de vez com a história) de onde se avista, ainda, lá no fundo o famoso igarapé e nas paredes de pedra um brasão deixado por eles como uma marca de sua passagem.

Mudaram o terreno mas fizeram até bem feito ao contrário do que se vê hoje que sai a água e entra a me..lancolia. Quem dera que fosse lixo, lama, mureru. Dêem só uma olhadinha e constatem o descaso político. Nem a famigerada copa resolve isso. Sempre falta mais e mais verbas para projetos tão insanos. Na verdade o que falta mesmo é inteligência, eficiência e vontade de realizar. O projeto para ser bom não precisa ser mirabolante e caro. 
        
Faria mais sentido se o Igarapé de Manaus, o Mestre Chico, o Mindú, o Franco, o Quarenta e os mais de cem igarapés que já escorreram por aqui, estivessem vivos e revitalizados nos dando peixes, beleza e... água, minha gente. Transformar água em me...lancolia não foi um bom negócio pra ninguém. Nossas águas são doces, calmas, belas mas não fresque não. Uma hora elas vão reagir e aí criaturas indefesas vai todo mundo no bolo fecal. É bonito isso?

(*) É escritora, jornalista e articulista do NCPAM/UFAM.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

JUDAS E AS MARIAS DE CRISTO
Ademir Ramos (*)

           A narrativa histórica dos cristãos celebra na Páscoa, a vida, morte e ressurreição do Cristo libertador. Os fatos comungados nas liturgias comunitárias são carregados de paixão, elevando a pessoa ao pertencimento da dor do outro, que consumado pela redenção do filho de Deus é elevado à condição de homem livre contra o poderio do Império Romano, dos sacerdotes da Corte e toda forma de redução do homem, assim, explorado, dominado e excluído do lucro da terra, do trabalho, vivendo sob as estruturas do pecado social.  

           As alegorias são múltiplas e na idade média a reinvenção da tradição ganhou cores e formas que povoaram o imaginário popular migrando para as terras conquistadas, merecendo das culturas leituras variadas em formato não muito aceito pela tradição Romana.

            A trama da Paixão tem gosto amargo da injustiça, quando o Sumo Sacerdote sente-se ameaçado e começa a interrogar o jovem Cristo como força contrária a sua plataforma política, pondo em dúvida a legitimidade do poder que o exerce. Assim, o Cristo Messias é condenado por blasfêmia e sofre as mais cruéis humilhações que um homem poderia sofrer, tendo sido injuriado, escarnecido e por fim a cruz como paga.

           Mas, antes, bem antes, a profecia reserva ao Cristo, a dor da traição, manifestação recorrente no cotidiano dos homens que lidam com a paixão e o labirinto da política. Pois, como diz o salmista (Sl 41,10): “Até meu amigo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou o calcanhar contra mim”.

           Contra o Messias levantou-se Judas Iscariot, que com ele comia e bebia, para dedurá-lo em troca de alguns dinares. E assim o fenômeno tornou-se mais próximo porque faz pensar sobre a condição humana e as disputas vividas em suas diversas frentes institucionais. Mas, o fim do traidor é a morte de forca, o suicídio, que ganhou vida na arte popular, passando a ser execrado em praças públicas pelos populares, identificando-o com Atores sociais, religiosos e políticos que também ludibriam o povo de Deus, fazendo as maracutaias nos poderes instituídos, metendo a mão no dinheiro público em benefício próprio.

          Desse modo, na calada da noite de hoje (sexta) para amanhecer o sábado, o Judas Traidor se faz presente nos postes das cidades do Brasil e das culturas barrocas, com fisionomia de pessoa pública para ser malhado, fazendo-se justiça contra os corruptos que crucificam o povo, enganando, prometendo e dando pinta de honesto.

          Mas, a morte é consumada pela ressurreição do Cristo, que por sua vez tem como testemunha Maria Madalena, Maria Mãe de Tiago e Salomé. A beleza desta Saga está nestas mulheres, que por força do amor e de sua paixão iam ungir o corpo do sacrificado e lá chegando encontraram, segundo elas, o túmulo saqueado. Ainda sob espanto, foram convencidas de que Ele havia ressuscitado e a elas o espírito de Deus confiou para que anunciassem aos apóstolos a consumação do tempo porque o Cordeiro de Deus, segundo Apocalipse (Ap 5,9), em sendo imolado, pelo seu sangue, havia resgatado para Deus, os homens de toda a tribo, língua, povo e nação. Elas, as mulheres, são as primeiras a vivificarem o cristianismo desde a revelação até a ressurreição. No entanto, foram também as primeiras excluídas do mandamento dos ministérios eclesiásticos romano, rogando a Deus, em tempo, que a Justiça seja feita.

(*) É antropólogo, professor e coordenador do NCAPM/UFAM.