CARAMBOLEIRA
QUE NÃO É SÓ MINHA CARREGADA DE SONHOS
Ademir
Ramos (*)
Há
mais de vinte anos tenho cuidado com zelo do meu pé de Carambola no recanto do
jardim da modesta casa da Alameda Juruá. Faça sol ou chuva ela, a Caramboleira,
continua servindo de morada para os passarinhos que voam longe, mas, ao cair da
tarde voltam cantantes para o refugio noturno buscando abrigo em sua copa.
Na
aurora matinal a passarada desperta em festa cantarolando os mais variados tons
que se harmonizam na sinfonia da floresta com sonoridade difusa como se
quisessem despertar também nos homens o canto como linguagem comunicante
marcada pela alegria do bem-te-vi e do bem-viver.
No
fim da tarde, o abrigo aconchegante do verde acolhedor da copa da Caramboleira
faz adormecer os justos, que ao despertar pela manhã com sol ou chuva
regozijam-se com alegria fazendo o mais desatento dos homens acordarem para o
mundo livre voando tão longe com os passarinhos livrando-se das amarras que não
apetecem seus corações e muito menos a imaginação criativa daqueles que buscam
aprender a pensar guiados tão somente pelo conhecimento balizado pelo saber
filosófico e da ciência em movimentação.
A
Caramboleira, que não é só minha, acolhe também todos os dias as Curicas
assanhadas, faladeiras com suas penas verdes que nem dos periquitos amazônicos,
buscando satisfazer seus apetites comendo o fruto ainda verde, não deixando
nada ou quase nada para ser consumido pelo cuidador que gosta e muito de cortar
a Carambola em estrelas para degustá-la, principalmente esta, que é de um gosto
doce e terno a remexer em nossa memória afetiva.
Traído
pelas Curicas faladeiras e festivas, o cuidador dar-se por satisfeito em admirar
as minúsculas flores da Caramboleira como promessa de fruto, alimento e pão. No
curso dos projetos e sonhos quer porque quer que esta prática se espalhe como
vento geral em forma de lei a garantir que a mesa seja farta e o pão de cada
dia não falte jamais às crianças e jovens vindos a vicejar com saúde e beleza na
aurora das manhãs com alegria e sedução na cantoria dos pássaros muito além do
jardim e do Pé de Carambola da Alameda Juruá, a exigir cuidado e proteção
contra os malfeitores embrutecidos, que não permitem que o outro seja capaz de
amar e voar como os passarinhos na esperança do encontro de um novo amanhã.
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