sábado, 30 de agosto de 2008

NO PALANQUE MUNICIPAL, BATMAN E CORINGA SÃO IGUAIS




Josias de souza*

Quem é inimigo de quem na política? Quem apóia quem nas eleições de 2008? As perguntas vêm a propósito dos palanques municipais, uma das graças do momento.

Alguns deles conferem à expressão “coerência política” uma aparência de velha louca. Uma maluca que faz tricô com o novelo de suas próprias contradições.

O mapa brasileiro está apinhado de alianças esquisitas. Experimente-se, de saída, olhar para Natal.

Ali, há quatro anos, o tratamento mais cortês que o peemedebista Garibaldi Alves mereceu da petista Fátima Bezerra foi o de “ladrão”.

Pouco depois, no Senado, Garibaldi se tornaria relator de uma investigação cujo ânimo em relação a Lula e ao petismo rendeu apelido apocalíptico: “CPI do Fim do Mundo.”

Pois não é que agora Garibaldi está, junto com Lula, no palanque de Fátima Bezerra? Voltem-se os olhares agora para Salvador.

O PT local é representado pelo candidato Walter Pinheiro. Mas o governador petista Jaques Wagner flerta com Antonio Imbassahy (PSDB) e com João Henrique (PMDB).

Hoje tucano, Imbassahy alçou vôo na política agarrado às asas de um ACM cujas práticas o petista Jaques Wagner se propõe a varrer da Bahia.

Henrique é apoiado por Geddel Vieira Lima. Um amigo de FHC que, antes de tornar-se ministro de Lula, dissera o seguinte sobre a hipótese de o PMDB aceitar cargos:

“A meu ver, não é imoral. É aético, politicamente, que isso seja feito com partidos e parlamentares que não foram às ruas defender as bandeiras de Lula.”

Em São Paulo, José Serra (PSDB) prefere o ‘demo’ Gilberto Kassab ao tucano Geraldo Alckmin. Em Minas, Aécio Neves (PSDB) tricota com o petista Fernando Pimentel.

O mesmo PT que se insurge contra a amizade colorida de Pimentel com Aécio engole a proximidade do governador Marcelo Déda (PT) com o tucanato sergipano.

O espaço de um único artigo é pequeno demais para realçar todos os pontos do tricô da “coerência política”, essa velha louca. Assim, melhor encaminhar o texto para um arremate.

Diz-se que o eleitor brasileiro só dá atenção a nomes, não a partidos políticos. Seria uma distorção que não contribui para o bom funcionamento da democracia brasileira.

É verdade. Mas os políticos não ajudam a aperfeiçoar os costumes, eis o que se deseja realçar. A diversidade dos palanques como que acomoda os Batmans e os Coringas da política num mesmo saco.

Aos olhos do eleitor, super-heróis e bandidos tornam-se iguais. Os partidos e seus filiados viram um amontoado mal definido.

Algo que a sabedoria popular convencionou chamar de “farinha do mesmo saco”. Uns seriam a cara esculpida e escarrada dos outros.

É óbvio que ninguém é igual a ninguém. Mas, se os partidos, se os próprios políticos buscam de maneira tão frenética a indiferenciação, como exigir mais do eleitor?

Se são todos iguais, como pode o eleitor escolher conscientemente entre um e outro? Como decidir em quem votar? Pior: para que votar?

* O autor é jornalista e blogueiro do site http://josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

OS SERINGAIS E A PRÁTICA DE AVIAMENTO



“Servidão Humana na Selva – O Aviamento e o Barracão nos Seringais da Amazônia”. O livro em foco é de autoria do professor Carlos Teixeira, amazonense de Humaitá, que além de ter sido professor da PUC de São Paulo e da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), participa também do NCPAM - Núcleo de Cultura Política do Amazonas do Departamento de Ciências Sociais da UFAM, que vem investigando o movimento da história regional negligenciado, muitas vezes, pela ortodoxia das ciências sociais, como é caso do cotidiano, das lutas e dos sofrimentos dos homens e mulheres que trabalharam nos seringais da Amazônia, enfrentando os percalços de uma vida difícil, os perigos da floresta e a opressão engendrada pelos donos dos barracões, como bem analisa o autor em sua obra. É uma pesquisa minuciosa em que o autor recorre a documentos e entrevistas com seringueiros, caboclos e personagens que protagonizaram essa história.

Carlos Teixeira, num gesto solidário e de compromisso com a verdade histórica, faz justiça a esses homens e mulheres freqüentemente esquecidos pela historiografia oficial. Os personagens desta obra são os seringueiros e suas histórias de resistência, a luta para sobreviver na selva, sob um regime de servidão. O professor da USP, José de Souza Martins, que apresenta o livro, situou o problema com precisão, ao afirmar que o livro “reúne os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia”.

O estudo de Carlos Teixeira nasce predestinado a ficar na historiografia amazônica e brasileira como uma das obras referenciais sobre o processo de desenvolvimento regional e suas conseqüências sociais. O foco do autor é um padrão econômico que cumpriu seu momento histórico, como esclarece como bem esclarece em suas páginas: “O seringal na verdade está desaparecendo, e com ele o extrativismo. O seringal, pois, possui uma identidade histórica particular... associada à constituição do modo capitalista de produção, especialmente à fase que corresponde à concentração do capital e à conseqüente formação dos monopólios”.

O trabalho é um estudo histórico e sociológico dos seringais, sem deixar de refletir sobre o período e as conseqüências sociais e humanas do período do fausto da borracha, ressaltando os aspectos de sua decadência. O livro “Servidão Humana na Selva” volta-se ao público leitor do campo das ciências sociais e aos demais interessados em pesquisar a vida social e econômica da nossa Amazônia.

O lançamento da obra será neste sábado (30) às 10h, no Espaço Cultural Valer - Rua Ramos Ferreira, 1195, no Centro Histórico de Manaus, sob a chancela das Editoras: Valer e Edua (Editora da Universidade Federal do Amazonas).


O ato será marcado pela presença dos acadêmicos e dos especialistas, que pensam a Amazônia numa perspectiva sustentável, repudiando o trabalho escravo e a perversidade da desigualdade social, tão comum na presente configuração da exploração do trabalho no Distrito Industrial de Manaus, bem como relativo à devastação da floresta capitaneada por fazendeiros, madeireiros e grileiros, aliançados com políticos e governantes oportunistas e aventureiros, a se multiplicar como praga por toda Amazônia.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

DA LÓGICA DA SEPARAÇÃO DOS PODERES


Breno Rodrigo de Messias Leite*



A teoria da separação dos poderes, talvez, seja um dos pontos mais conhecidos da interpretação política de Montesquieu. Após desenvolver uma revisão profunda das três formas de governo (república, monarquia e despotismo) que se apresentaram na história das civilizações, o autor introduz os princípios de uma inovação político-institucional significativa que se fará presente nas revoluções liberais do século XVIII e XIX: o princípio da separação dos poderes.

De acordo com seu modelo, os poderes deveriam ser separados em três estratos distintos:

a) O Poder Executivo é a realização do governo em sentido lato; a representações política de um chefe político instituído de poderes políticos e administrativos capazes de executar as ações governamentais, sendo que muitas delas são “momentâneas” na atividade política;

b) O Poder Legislativo designa a forma de se conduzir a construção de leis universais; também tem a função de representar frações da nobreza e da burguesia através das vontades da maioria e da minoria que fossem instituídas de representatividade política; é a representação máxima do “povo” capaz de fazer um contraponto ao poder de um homem só;

c) O Poder Judiciário “julga os crimes e pune as querelas dos indivíduos”, e por esta razão deve ser um poder “invisível e nulo” no sentido de não ser representativo de um só ou de muitos; busca a eqüidade na dinâmica entre os poderes executivo e legislativo, uma vez que não é o poder dos homens como o executivo e o legislativo, e sim um poder das leis; controla a legalidade e a constitucionalidade das leis produzidas no legislativo; cabe ao poder judiciário concretizar ou não, de acordo com as leis fixas e estabelecidas, o que é bom ou prejudicial ao bem comum de todos. Montesquieu afirma que os “juízes (são) a boca que pronuncia as sentenças das leis, seres inanimados que não podem moderar nem sua força nem seu rigor”.

Ao desenvolver seu comentário sobre a Constituição da Inglaterra, livro XI, (Do Espírito das Leis), Montesquieu expôs os principais motivos para a existência de um arranjo institucional preparado para combinar participação política e eficiência governativa: “Há em cada Estado, três espécies de poderes: o poder legislativo, o poder executivo das coisas que dependem do direito das gentes, e o executivo das coisas que dependem do direito civil. O primeiro, o príncipe ou magistrados faz leis por certo tempo ou para sempre e corrige ou ab-roga as que estão feitas. Pelo segundo, faz na paz ou na guerra, envia ou recebe embaixadas, estabelece a segurança, previne as invasões. Pelo terceiro, pune os crimes ou julga as querelas dos indivíduos. Chamemos este último o poder de julgar e, o outro, simplesmente o poder executivo do estado”.

Com este princípio, Montesquieu introduz os fundamentos do liberalismo político moderno, que pretende assegurar a primazia da lei e a participação civil nos espaços de decisão pública, quer dizer: a participação nos “três poderes”. Não se trata mais de se submeter a um único poder absoluto (Hobbes e Bodin), pois é possível criar mecanismos institucionais para o exercício de um governo equânime na participação e eficiente na decisão pública.

Porém, a lógica da separação dos poderes não funciona estritamente sob a ótica dos mecanismos de checks and balance entre os poderes executivo e legislativo. O próprio Montesquieu admite certa preponderância do poder executivo em relação ao legislativo. De fato, o poder executivo funciona como uma força ativa, que precisa tomar decisões públicas imediatas e rápidas nas mais diversas situações. O poder executivo deve ter uma relativa liberdade para movimentar as ações governamentais sem necessariamente passar pela discussão do poder legislativo, cuja função é eminentemente passiva. Segundo Montesquieu, “O poder executivo deve permanecer nas mãos de um monarca porque esta parte do governo, que quase sempre tem necessidade de uma ação momentânea, é mais bem administrada por um do que por muitos”.

Montesquieu avança a discussão no sentido de apontar a preponderância do poder executivo na própria arena do poder legislativo, sugerindo assim a emergência e consolidação dos poderes legislativos do executivo, fato que numa teoria pura da separação dos poderes, desprovida de senso de realidade, torna-se inviável. “Se o poder executivo não tem o direito de vetar os empreendimentos do corpo legislativo, este último seria despótico porque, como pode atribuir a si próprio todo o poder que possa imaginar, destruiria todos os demais poderes”. Dessa forma, o poder executivo pode participar da legislação por meio do direito de “veto”, sem ser limitado de suas prerrogativas institucionais no legislativo. Certamente, este argumento de Montesquieu é uma observação dialógica ao princípio lockeano da separação dos poderes.

Para John Locke, a separação dos poderes responderia a possibilidade da emergência de um poder legislativo forte, que fosse capaz de ser uma arena representativa dos proprietários (nobreza e burguesia), através das leis fixas, contra a tirania de um monarca. Contanto uma ressalva é importante nesta reflexão comumente atribuída ao liberalismo de Locke. Para o autor de o Segundo Tratado sobre o Governo dever-se-ia, antes de tudo evitar o dualismo de poderes que resultaria em paralisia de decisão e violência política generalizada. Desta forma, “Embora, conforme disse, os poderes executivo e federativo de qualquer comunidade sejam distintos em si, dificilmente podem separar-se e colocar-se ao mesmo tempo em mãos de pessoas distintas; visto como ambos exigindo a força da sociedade para seu exercício, é quase impraticável colocar-se a força do Estado em mãos distintas e não subordinadas, ou os poderes executivo e federativo em pessoas que possam agir separadamente, em virtude do que a força do público ficaria sob comandos diferentes, o que poderia ocasionar, em qualquer ocasião, desordem e ruína” (: 92).

Montesquieu utilizou deste mecanismo – a lógica da separação dos poderes – para garantir as liberdades dos homens em todos os seus aspectos. E determinar arranjos institucionais do poder legislativo que assegurassem a produção de leis eficientes, o que proporcionaria uma autonomia relativa às atitudes do poder executivo. Desta forma, a conseqüência prática do princípio da separação dos poderes garante a liberdade política aos homens respeitando os seus direitos fundamentais, o que possibilita o exercício da liberdade filosófica e existencial.

A leitura do liberalismo político de Montesquieu permite que se desenvolva e se aperfeiçoe as noções de liberdade cívica, constitucional e política – os princípios seculares da cidadania no ocidente. Na sua visão, o melhor modelo de amadurecimento político encontra-se no sistema político e constitucional inglês, principalmente no modelo constitucional inglês. Na condição de investigador, Montesquieu viajou e constatou in loco a situação da Constituição Inglesa, apontou suas virtudes e funcionalidade política, que propiciava a eficiência do poder executivo que toma decisões políticas, e do poder legislativo que formula leis boas e representa parcela significativa da população.

Talvez o maior legado da construção teórica do liberalismo político desenvolvido em Do Espírito das Leis foi o princípio da separação dos três poderes, hoje aperfeiçoada e modernizada pelas abordagens constitucionalistas advindas das revoluções liberais ocorridas nos Estados Unidos (1777), na França Republicana (1789), posteriormente da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, e nas inovações constitucionais kelsenianas do pós-guerra de 1945.

Outro componente importante na explicação de Montesquieu, e que está associada ao princípio da separação dos poderes, diz respeito à questão da liberdade. Pode-se dizer, neste aspecto, que as idéias de Montesquieu estão intrinsecamente vinculadas a construção filosófica dos gregos. Ele distingue a liberdade em dois aspectos: a liberdade do ponto de vista filosófico consiste em ter o pleno “exercício da vontade”, da opinião, da liberdade das idéias. E do ponto de vista político, cumpre tomá-la com respeito ao cidadão e a sua segurança; na liberdade política, o cidadão deve ter como princípio, para assegurar a sua liberdade na representação pública e na vida em sociedade.

Desta forma, o princípio do liberalismo político de Montesquieu deve ter como horizonte a separação dos poderes executivo, legislativo e judiciário, que sejam capazes de assegurar as liberdades dos homens e dos cidadãos. Por um lado, o homem enquanto ser social deve estar livre de constrangimentos éticos e religiosos que aprisionam sua subjetividade componente fundamental da emancipação do homem inspirado pela razão iluminista. Por outro lado, o cidadão é o elemento que sustenta a existência da liberdade pública e dá sentido à separação dos poderes. Montesquieu já desenvolve uma interpretação integrada do princípio da liberdade das idéias e da liberdade pública.


É mestrando em Ciência Política (UFPA), bolsista da CAPES e colaborador do NCPAM.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A COMPLETA SEGREGAÇÃO DO PCdoB


*Antonio Neto
Hoje muito se tem debatido sobre as mudanças teóricas e práticas nas organizações da esquerda tradicional, como os PCs e os partidos sociais democratas. Esses partidos não só vêm assumindo claramente posições políticas cada vez mais à direita como têm participado diretamente de governos nitidamente burgueses.
Para por em prática esse completo giro político, os PCs e os Partidos Sociais Democratas, rebaixam seus programas e se ajustam cada vez mais ao regime democrático-burguês, defendendo suas instituições, compactuando com a corrupção e com políticas econômicas neoliberais.

O pragmatismo político dessas organizações tem impactado aqueles que estavam sob sua esfera de influência e acreditavam nos propósitos e ideais socialistas que aparentemente defendiam. Para essas pessoas, a crise dessas organizações é também uma crise do socialismo.

Por isso, encaram o debate com um misto de espanto, ceticismo e frustração.
Queremos demonstrar que nem os PCs e nem a Social Democracia podem ser vistos como portadores da herança do socialismo ou do marxismo. Essas organizações iludiram as amplas massas com um discurso de que buscavam o socialismo, mas, na prática, atuaram como seu coveiro. Nesse sentido, é importante separar a crise e dessas correntes políticas e a perspectiva socialismo.

É nesse marco que podemos discutir a degeneração do PCdoB em escala nacional e regional. De um ponto de vista histórico, esse partido foi uma variante do regime stalinista. Tinha como referência o modelo "socialista" da Albânia. Um regime que já nasceu burocratizado. Os PCs no mundo inteiro, a partir do regime stalinista, se pautaram pela colaboração e pela conciliação entre as classes antagônicas, pela teoria dos campos ( um campo progressista e um campo conservador) e pela completa deformação do marxismo ao defender no plano teórico e prático a revolução por etapas e o socialismo em um só país. Desde então esses partidos não apenas aprofundaram a burocratização nos Estados Operários (URSS e países do Leste Europeu) como protagonizaram as maiores traições às lutas históricas da classe trabalhadora em todo o mundo.

Os PCs já tinham, portanto, rompido com o materialismo histórico e com o marxismo desde o regime stalinista. O que se tinha era uma grande influência ideológica desse poderoso aparato burocrático (Estados operários degenerados – URSS e Estados Operários burocratizados - Albânia, Cuba, China, etc) que impedia a classe trabalhadora de enxergar a verdadeira essência desses partidos. Por isso, milhões continuaram sob essa influência. A Queda do Muro de Berlim, simbolicamente revelou essa trágica realidade. Desde então, os partidos ditos comunistas entraram numa nova fase de degeneração. Desceram muito abaixo do que já haviam descido.

Passaram a participar diretamente dos governos burgueses e quando falam de aliança com a burguesia nem enrubescem mais as suas faces. Perderam aquilo que já não tinha, qualquer escrúpulo.

O PCdoB é a expressão desse processo. Esse partido é a degeneração da degeneração do marxismo. E, sua crise é tão profunda, a sua identidade parece tão distante que não consegue nem mesmo se apresentar como caricatura do que já foi. E isso significa que, até mesmo os resquícios de stalinismo (não de marxismo) estão sendo renegados. Em outros momentos se permitiam ao trabalho de elaborar justificativas para legitimar suas alianças espúrias com uma certa lógica e um certo verniz de esquerda, mas hoje, nem isso eles fazem mais. Utilizavam a “teoria dos campos” para dizer que estavam se unindo a um campo progressista para impedir o avanço de um campo conservador, definiam com certos critérios as alianças, etc. Mesmo considerando que essas teorias são alheias ao marxismo (uma espécie de revisionismo), elas funcionavam com uma espécie de anteparo ideológico que definia um campo, uma fronteira para esse partido. Isso se perdeu no vendaval oportunista a partir dos anos de 1990.

Então, rigorosamente, se antes não se podia considerar os PCs, ou especificamente o PCdoB, como um partido marxista – comunista, atualmente, seria um erro considerar que a sua degeneração se confunda com a perda de perspectiva no socialismo ou no comunismo. Para ser cuidadoso com os conceitos e com a experiência política mundial, podemos dizer que se trata da degeneração de um Partido Stalinista que se travestia de comunista. O conceito comunista é um conceito muito caro para ser atribuído ao PCdoB.

Aqui no Amazonas fica cada vez mais nítido o colaboracionismo e a participação direta desse partido nos governos burgueses. A sua degeneração chegou a um ponto tão dramático que se encontra dividido em facções dos que apóiam Braga ou dos que apóiam Serafim. Mas, esse não é um privilégio apenas do stalinismo – do PCdoB. O reformismo, a social-democracia petista está trilhando o mesmo caminho, com o mesmo enfoque e o mesmo cálculo pragmático dos cargos e privilégios do poder.


*Antonio Neto é Professor de Sociologia da Universidade Federal do Amazonas.

sábado, 23 de agosto de 2008

A POESIA NO REINO DAS AMAZONAS




A Livraria Valer, em Manaus, propiciou aos amantes da poesia, celebração fraterna regida pelo calor da amizade a estender-se rio adentro a desaguar no mar. O encontro dos amigos foi no sábado (15/08), quando lá estiveram para encontrar o poeta e acadêmico paraense, João de Jesus Paes Loureiro, o primeiro a esquerda da foto, e se encantar com sua poesia condensada em título editorial como Água da Fonte (São Paulo: escrituras, 2008).

Na academia, o poeta é um pesquisador da cultura amazônica, que denuncia o descaso das políticas culturais brasileiras relativas ao reconhecimento e valorização da nossa cultura. A ignorância dos burocratas e editores nacionais é monstruosa, entretanto, resistimos, publicando e rompendo preconceitos contra esses monstros dos enlatados e da mesmice.

Paes Loureiro referencia seus estudos na pesquisa sobre o rico Imaginário Cultural Amazônico, representado por configurações iconográficas, que afirmam identidades culturais específicas, na perspectiva de sustentação de uma Poética do Imaginário, como bem definiu em sua tese de doutorado referente à sociologia da cultura. No entanto, é a poesia que nos humaniza e faz ver que somos mais do que aparência, é a sonoridade do outro a dialogar com o mundo em movimento tal qual o rio no Reino das Amazonas, a se definir como recorrente desencontro numa dialética das culturas. Vejamos:

RAÍZES CRAVADAS

Raízes cravadas à margem o rio tenta agarrar-se
Tenta parar
sua própria correnteza
O rio tenta.
Tenta deter o seu ser.
Tenta, inútil, o não-ser.
O rio talvez não saiba que ser rio é

ser corrente
que não se prende às margens que o rendem.
Correr em busca de si
Sem encontrar-se jamais consigo mesmo...
Eis o destino humaníssimo do rio,
a inquietação percorrente de sua alma líquida:
Buscar-se para sempre em suas águas,
sem que possa parar para encontrar-se.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

QUANDO O PENSAMENTO É SUBVERSIVO





Khemerson Macedo*

(Karl Marx dizia que toda sociedade pré-estabelecida, a partir de suas contradições internas, tenderia necessariamente a alcançar uma nova realidade social, ou seja, tese – antítese – síntese. Tomarei emprestada essa premissa para aplicá-la ao artigo abaixo sobre o pensamento, mas já vou avisando: não procurem coerência, não é este o meu propósito!).

I. A tese: “penso, logo existo” (Descartes)

Pensar é um ato preponderantemente humano. Temos capacidade de dialogar com o nosso meio a partir de nossas experiências individuais e/ou coletivas; criamos, assim, inteligibilidade acerca das coisas que nos cercam, dando sentido à nossa existência. Definimos-nos a partir daquilo que construímos em sociedade. Neste processo, nos discernirmos também entre nós mesmos; criamos desigualdades, classes sociais, instituições, definindo quem domina e quem é dominado.

Percebemos, dessa forma, a relação fundamental existente entre pensamento e ação, que orienta nossa inteligibilidade e a nossa existência. Quando pensamos, projetamos algo para nossa vida, seja esta para o bem ou para o mal, criando as condições para a manutenção de determinado status quo. Nesse sentido, nossa ação também orienta nosso pensamento.

A soma de todas as inteligibilidades se massifica em um pensamento único, dominante, e que prepondera em determinado período histórico, sabotando a capacidade que nós temos de criar interpretações próprias para o nosso próprio devir, nos deixando reféns da perversa lógica do capital, onde tudo é comercializável e supérfluo.

Tudo na sociedade se orienta para esta tendência: as artes, a cultura, as relações pessoais. Somos individualizados para sermos potencialmente competidores natos. Tudo é voltado para a calculabilidade; as relações pessoais são destruídas ou despersonalizadas, viramos sombras, à procura de algo para comprar!

Seguindo esta lógica, como fazer para dela fugir?

II. A antítese: “existo, logo penso” (?)

Bom! Vocês viram acima o que eu penso acerca do que é pensar (que trocadilho infame!), agora, proponho, a partir disso, algumas reflexões acerca de como poderíamos fugir um pouco da lógica do pensamento dominante capitalista. Agora, se você não ta nem aí pra esse artigo, recomendo outro site qualquer (a Sexy, por exemplo)!

Nada melhor do que combater as formas de ver, sentir e agir do mundo capitalista com um pouco de subversão. Mas o que isso significa? Subverter significa quebrar barreiras, revolucionar, criar outros meios. Expressa contestação, propõe mudanças radicais, ou seja, para a moral capitalista, é o mal!

O pensamento dominante se reproduz entre as “almas” que corrompe a partir da simplicidade de sua reprodução: não nos deixa pensar. Assim, não há contestação! Tal manutenção é flagrante quando: 1) as artes são orientadas para a cultura de massa: novela, sessão da tarde, forró (do tipo Lapada na Rachada!); 2) a cultura popular vira espetáculo (os mega-shows do Roberinho)! e; 3) a educação é tratada com descaso e não levam em conta as especificidades de cada região.

Dessa maneira, o pensamento predominante gera sua própria antítese: a inquietação, a revolta, a luta, a subversão. Passemos ao outro tópico!

III. A síntese: o pensamento subversivo

Pensar subversivamente é lidar o tempo todo com o novo, é ter a possibilidade de criticar tudo à sua volta, angustiando-se com o marasmo e criando tudo continuamente (poderia até reescrever este artigo, por exemplo). É a ação a serviço do pensamento limpo, sem corrupções e/ou alienações. É a tomada de consciência a partir do pensamento engajado, comprometido com a crítica contínua à sociedade (deixa-me resumir ao leitor, antes que este caia no sono, de tanto tédio: pensar subversivamente é pensar de fato, literalmente). É fugir das regras impostas e criar alternativas interessantes. Como este artigo, por exemplo, que, em vez de seguir uma linha mais acadêmica, preferiu adotar uma linha não muito ortodoxa.

Mas, afinal de contas, não é esta a idéia deste artigo?


* Coordenador de Projetos do NCPAM e Cientista Social.

domingo, 17 de agosto de 2008

MIRANTE DO COTIDIANO - "O CANOEIRO E O BANZEIRO"


É no banzeiro das águas, símbolo de fertilidade e da continuação da vida, que o canoeiro, este homem amazônico, enfrenta as intempéries, conduzindo com maestria a sua minúscula embarcação, circundada pelos elementos ímpares da maior floresta tropical do planeta: rios de água doce, matas, sons e mistérios. A canoa é verdadeiramente a sua propriedade móvel, com ela, afirmou Gonçalves Dias, “continua o seu viver instável, errante, imprevidente; acomoda-se dentro dela com a mulher e filhos, vão às praias e assim vivem muitos meses do ano, dando aos filhos a educação que tiveram, e não compreendendo que careçam de mais nada”.


O que o poeta indianista chamava de viver errante é, na realidade, a cultura desses homens e mulheres que demarcam seu cotidiano por ritmos diferenciados, sabendo ler os sinais do tempo impulsionado pela hora da partida ou da chegada, mediado pela sustentabilidade e pelo encontro de se estar presente nas festas populares, animados pela alegria de viver. Assim, lá vai o canoeiro pelo rio das Amazonas.


Enquanto representação expressa a presença de um homem, remando em alto rio, com a plasticidade que pode ser muito bem admirada na foto em tela, fazendo pensar sobre o destino, o horizonte e a própria existência. Contudo, o mais importante é que este homem move-se para algum lugar, vencendo as água e os obstáculos que encontra no seu ato de remar. (In: Amazonas Diversidade Cultural Iconográfica. Sebrae/AM. 2007).