sábado, 26 de janeiro de 2013


MANAUS DO AVESSO

Descobri que em tão pouco tempo de nossa existência destruímos o que realmente interessa para a nossa sobrevivência como a água, as árvores, os bichos, a natureza, enfim. Descobri que nos falta educação, amor próprio, bons políticos para gerir os recursos, dignidade.

Ellza Souza (*)

Nem sei como falar do que tenho visto ultimamente. Com a demolição das casas de frente por parte do Prosamim na área da bacia hidrográfica de São Raimundo descobri andando por esses lugares muitas coisas incompreensíveis para uma cidade que se diz nos primeiros lugares em riqueza do país. Descobri minúsculos igarapés que escorrem do igarapé maior. Descobri um emaranhado de casas improvisadas por cima desses riozinhos. Descobri uma vegetação resistente a agressões. Descobri crianças vivendo amontoadas em cima de igarapés completamente poluídos em casas de tábuas caindo aos pedaços e que estudam mas não sabem a lição  maior de não jogar lixo no meio ambiente. Descobri histórias de vida e de desalento pela intervenção sofrida. Descobri histórias que não convencem de moradores que fizeram suas casas num local inadequado para suas famílias. Descobri alegria em crianças desprovidas de boa educação, de bens materiais, de boa alimentação, mas fazendo da tristeza uma festa de despedida pela saída do local. Descobri em alguns relatos a inevitável lembrança de que “o igarapé era limpinho”. Descobri sofá, fogão, geladeira, cadeira, jogada ao relento. E muita sacola plástica pra todo lado. Descobri não rios de sujeira mas um oceano de lixo  e ratos por entre moradias e moradores. Descobri que em tão pouco tempo de nossa existência destruímos o que realmente interessa para a nossa sobrevivência como a água, as árvores, os bichos, a natureza, enfim. Descobri que nos falta educação, amor próprio, bons políticos para gerir os recursos, dignidade. Descobri que não sabemos mais o que é um beija flor pois sem as plantas não temos flores e sem as flores não temos mais esses e outros passarinhos que nos tornam mais humanos.

 Descobri que a vida ficou feia, ficou triste, sem imaginação, sem arte, sem boas ideias. A vida fede ao nosso redor pois o lixo se mistura aos dejetos formando lama infectada pra todo lado. Descobri que matamos igarapés, peixes e paisagens que podiam ser outras, mais belas sem dúvida. Recomendo que façam um passeio nas áreas da bacia do São Raimundo em áreas como a rua Beira Mar, rua da Cachoeira, Beco Normando, Pico das Águas, Aparecida (ig. do Belchior). Apenas esses locais vão lhes dar uma visão do horror a que estou me referindo. Fora o que foi aterrado e levado pelas prefeituras ao longo do tempo e o que foi levado pelas enxurradas para os grandes rios e mares, fica ainda uma gigantesca amostra, com a quantidade de lixo jogada pra todo lado, do quanto fazemos mal a nós mesmos.

A cidade teve sorte ao ser criada entre os vales de suaves colinas, com rios, olhos d’águas, grandes castanheiras, pedras jacaré, areia fina e branca, numa região ainda em formação geológica. Mal sabemos a sua história, mal conhecemos os nossos ancestrais e parece que não chegaremos a conhecer. Pelo andar da canoa logo-logo talvez nos reste as lágrimas como únicas representantes do que teria sido um dia a água de um igarapé na cidade de Manaus.

(*) É escritora, jornalista e articulista do NCPAM/UFAM.

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