sábado, 2 de agosto de 2008

A VINGANÇA CONTRA O SISTEMA


Ricardo Lima*


O filme V de vingança, baseado na história em quadrinhos de mesmo nome, é umas dessas películas rebeldes e contestadoras que fazem frente à indústria do cinema “enlatado” ou industrial. Por isso mesmo V de vingança encontra um lugar cativo entre já os “filmes malditos” da história do cinema, os filmes rebeldes, transgressores, aqueles que nos fazem pensar se tudo o que vivemos não é uma torpe mentira, se não estamos sendo manipulados pelas grandes corporações econômicas e por governos tiranos e corruptos.

V de vingança foi escrito inicialmente como uma crítica ao governo de Margareth Thacher, a Dama de Ferro, mas como a filmagem foi realizada nos dias de hoje, o governante em questão se torna o Sr. Bush, um presidente com uma face notadamente teocrática e autoritária, justamente o que é mais criticado no longa-metragem.

A primeira cena inicia-se com uma retrospecção da Conspiração da Pólvora do século XVIII, um homem havia tentado, em vão, explodir o parlamento inglês com vários quilos de dinamite, quando descoberto, sua sorte foi a mesma daqueles que atentam contra a dita “moral” e a pretensa “ordem” nos estados supostamente “democráticos”, ou seja, morreu na forca.

Logo, há um salto no tempo até os dias atuais. A Inglaterra, que havia se tornado em uma ditadura, desponta como a grande potência mundial. O despotismo inglês, assim como toda tirania, lança mão de uma poderosa propaganda ideológica, com aval dos grandes grupos de comunicação beneficiados pelo sistema, no qual funde-se religião e política, sendo que aquela acaba ratificando esta.

Um fato muito semelhante ocorreu e ocorre ainda nos Estados Unidos, a suposta “terra da liberdade”. O presidente Bush, a fim de justificar a invasão do Iraque, não só usou de artifícios de cunho geo-político, a “ameaça terrorista” à democracia e a liberdade, como também havia prerrogativas religiosas em tal invasão, a cena em que um general do exército americano surge na TV e afirma que a guerra é contra Satã e em prol do cristianismo.

Como pode ser daninho à sociedade quando se extingue o direito a liberdade de expressão! O governo tornar-se arbitrário, um fim em si mesmo, e não um meio para garantir o bem estar da população e da vontade geral, as ditaduras carecem de sentido; uma sociedade onde as informações passam pelo rigoroso crivo da censura que perde a capacidade autocrítica de diagnosticar seus problemas e reivindicá-los aos seus governantes, quando em uma escola se proíbe de exercer o senso crítico, essencial para uma educação e para a cidadania, as pessoas se tornam alheias aos problemas sociais, são fáceis de controlar, transformam-se em “rebanho de cordeirinhos” para os grandes, contentam-se com qualquer paliativo que o governo lhes ofereça.

Triste fruto da modernidade este excesso de individualização, as pessoas tornam-se tão voltadas para si mesmas que não percebem a dor, as tristezas, o sofrimento do outro, tão imersas em suas necessidades mesquinhas de subir na vida a qualquer custo ou de resolver as suas picuinhas perdendo a sensibilidade com o que está à sua volta; o excesso de individualização transforma as pessoas em reféns de si mesmas...

O senso comum tira a ciência de seu contexto e afirma que ela está sempre a favor da humanidade, um equívoco. Em V de vingança o governo faz testes ilegais e perversos em cobaias humanas com a finalidade de desenvolver uma nova arma biológica, o próprio “V” foi um das cobaias; quando uma pessoa morria, não era problema, pois no complexo de testes o homem era destituído de seu caráter humano, para em seguida ser uma simples coisa que deve ser aproveitada para os fins científicos e, no final, descartada.

Com essa passagem do filme enfoca a questão da falta de neutralidade da ciência, pois está sempre inserida em um contexto, e nem sempre é aplicada em prol da sociedade.

O herói “V”, mais umas das vítimas do sistema opressor, revolta-se contra a tirania e contra os terríveis testes a que fora submetido. Seu objetivo principal é a revolução, a destruição do parlamento, símbolo do despotismo, a o despertar da consciência crítica dos ingleses.

Os méritos da produção estão justamente na provocação que ele nos faz sobre a realidade: “Isto tudo realmente deveria ser assim?”, “Não poderemos mudar o Sistema para algo mais justo e humano?” ou “Como mudar?”. São estas as perguntas que o herói “V” nos faz, ele deseja que questionemos a realidade social de nossa comunidade, de nosso país, de nosso mundo, ele anseia que nós entremos em revolta contra esta democracia disfarçada em tirania e criemos um novo governo que atenda os anseios do povo e não das grandes corporações multinacionais.

Agora fica uma pergunta: “Como criar este novo sistema?”

* Pesquisador do NCPAM e estudante de Ciências Socias da Universidade Federal do Amazonas.

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