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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O CRIME DE HIROSHIMA, 64 ANOS DEPOIS

A campanha conservadora contra exposição questionava o patriotismo dos responsáveis pela exposição. Alegava que, por tornar desnecessária uma sangrenta invasão do Japão, a bomba poupara muitas vidas. Em 1947 Truman tinha sido específico. Falou que salvara 250 mil vidas americanas. Depois elevou o número a meio milhão. Mais tarde, um milhão. E afinal, “milhões”. Documentos militares só diziam 20 a 60 mil.

Argemiro Ferreira

No atual debate internacional exorcizam-se como loucos os governantes do Irã e da Coréia do Norte, acusados de buscarem armas nucleares. Mas não se fala que o único país a usar tais armas – não uma, mas duas vezes; não contra alvos militares, mas populações civis – é precisamente o mais veemente nas denúncias. Nem Stalin, vilão dos vilões no discurso dos EUA na guerra fria, praticou tal atrocidade.

Para alguns estudiosos, as bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki, há 64 anos, não foram o ato final da II Guerra Mundial, mas o primeiro da guerra fria, cuja data de nascimento pode ter sido aquele 6 de agosto. Tal questão está na raiz do debate sobre as razões invocadas para a decisão do presidente Harry Truman – controvérsia reaberta nos EUA em 2005, por causa da exposição do avião Enola Gay no Museu Aéreo-Espacial do Smithonian Institution.

No projeto original dos curadores da instituição, na exposição a réplica da superfortaleza voadora B-29 que lançou a bomba em Hiroshima estaria acompanhada das imagens e informações sobre os efeitos causados pela explosão. Ante vigorosa pressão conservadora, o projeto foi drasticamente reduzido. Mas a American University de Washington decidiu fazer outra exposição, na qual exibiu a destruição que o Smithsonian, envergonhado, optou por esconder do público.

A tragédia das cidades japonesas

A campanha conservadora contra exposição questionava o patriotismo dos responsáveis pela exposição. Alegava que, por tornar desnecessária uma sangrenta invasão do Japão, a bomba poupara muitas vidas. Em 1947 Truman tinha sido específico. Falou que salvara 250 mil vidas americanas. Depois elevou o número a meio milhão. Mais tarde, um milhão. E afinal, “milhões”. Documentos militares só diziam 20 a 60 mil.

Em 1965 o professor Gar Alperovitz, com base em vasta documentação, refutara (no livro Atomic Diplomacy: Hiroshima and Potsdam) a tese de que a bomba poupara vidas daquela forma. E 30 anos mais tarde constataram-se duas realidades críticas: 1. havia um abismo cada vez maior entre o que os historiadores sabiam e o que fora dito ao público; 2. poucas questões controvertidas ainda restavam.

Não se deve confundir – advertiu ele – o debate da eventual necessidade militar de se usar a bomba (para poupar vidas e apressar o fim da guerra) com a questão do ataque a Pearl Harbor ou a brutalidade dos militares japoneses – bombardeio de Shangai, saque de Nanking, prostituição forçada de mulheres coreanas, a marcha da morte de Bataan, torturas e assassinatos de prisioneiros de guerra, etc.

Se há quatro décadas a linha de raciocínio de Alperovitz era às vezes rejeitada como “revisionismo” ou “esquerdismo”, hoje existe – como chegou a escrever J. Samuel Walker, historiador-chefe da Comissão Regulamentadora Nuclear dos EUA – “o consenso de que a bomba não era necessária para evitar uma invasão do Japão e por fim à guerra em prazo relativamente curto”.

Para Walker, o exame acadêmico cuidadoso de registros, documentos e manuscritos revelados nos últimos anos “aumentou grandemente nossa compreensão sobre as razões da administração Truman para usar as bombas contra o Japão. Especialistas ainda discordam sobre certos pontos, mas questões críticas estão respondidas”. Entre elas o fato de que havia alternativas – e que Truman e seus assessores sabiam.

Aqueles documentos devastadores

Em artigo para a revista Foreign Policy e em outro livro (The Decision to Use the Atomic Bomb) Alperovitz referiu-se há 14 anos a esse reconhecimento de que já participam – às vezes enfaticamente, mas nem sempre – até alguns historiadores ortodoxos. Robert Messer, da Universidade de Illinois, considerou certos documentos (antes secretos, mas já então liberados) “devastadores” para a idéia tradicional de que a bomba era a única maneira de evitar uma invasão.

Ao morrer, a 22 de abril de 1945, o presidente Franklin Roosevelt não tinha informado o seu vice Harry Truman sobre a existência do secretíssimo Projeto Manhattan. Só 10 dias depois o secretário da Guerra, Henry L. Stimson, comunicou o fato ao novo presidente. Ao mesmo tempo, enfatizou o provável efeito decisivo da bomba na política externa. Stimson referiu-se então à arma como “a grande carta” (the master card) dos EUA no jogo diplomático.

Até então o governo americano reclamava garantias do ditador Josef Stalin (elas seriam dadas na conferência de Potsdam) de que o União Soviética declararia guerra ao Japão três meses depois da derrota alemã – consumada oficialmente a 8 de maio. Isso porque a superarma ainda não tinha sido testada quando Truman embarcou no encouraçado USS Augusta, a 8 de julho, para a cúpula de Potsdam.

Byrnes na linha dura – contra Stimson

Os americanos, que tinham decifrado os códigos japoneses, conheciam o teor das mensagens secretas trocadas pelos japoneses, nas quais ficava claro que se Washington concordasse com a permanência no trono do imperador Hirohito (o que iria acontecer após Hiroshima e Nagasaki) não haveria obstáculo à rendição. E que Hirohito já decidira intervir para por fim à guerra.

Stimson não acompanhou Truman no Augusta. Embora encarasse a bomba como master card, defendeu junto ao presidente a idéia – exposta antes pelo secretário Adjunto da Defesa John McCloy, numa reunião na Casa Branca – de um plano para a rendição japonesa que combinasse a aceitação da permanência do imperador no trono com a ameaça de lançamento da bomba.

Para Stimson, era importante “uma advertência ao Japão cuidadosamente calculada” antes de se usar a bomba. Mas o secretário de Estado James Byrnes tinha maior ascendência sobre Truman, de quem fora o mentor no Senado. E era contrário a qualquer tipo de concessão aos japoneses, preferindo chamar atenção para as atrocidades deles contra prisioneiros de guerra americanos.

Fonte:
Blog do Argemiro Ferreira

terça-feira, 11 de agosto de 2009

FREI TITO E A SUBVERSÃO COMO ESTRATÉGIA PARA DEMOCRACIA

O Brasil democrático não deixou passar em branco o dia de ontem, 10 de agosto, quando se completaram 35 anos da morte de um dos maiores exemplos de luta pelos direitos humanos no Brasil, o cearense Frei Tito de Alencar Lima, OP.

A Escola Dominicana de Teologia, sediada em São Paulo, homenageou o religioso com o Colóquio “Homenagem a Frei Tito - 35 anos depois”; antes, cerca de 100 pessoas estiveram presentes na celebração eucarística e na abertura do simpósio. No final do dia, uma mesa redonda debateu o tema “Memória do cárcere no tempo da repressão”.


Em depoimento, Frei Oswaldo Rezende, diretor da Escola Dominicana, disse que Frei Tito foi símbolo de denúncia da cruel e desumana tortura que os presos políticos sofriam nas mãos dos militares do país, durante a repressão: “Através dele, o mundo ficou sabendo o que acontecia nas masmorras da ditadura brasileira”.

Hoje (11), está previsto o painel “Frei Tito e a memória nacional”, com a presença de Frei Oswaldo e também Frei Betto, companheiro de luta de Frei Tito. O mundo político também está presente: no encerramento do evento, Paulo Vanucchi, ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, fará palestra sobre “Frei Tito e os direitos humanos no Brasil”.

Sua terra natal, Fortaleza, o homenageia criando a Semana de Direitos Humanos Frei Tito de Alencar na rede municipal de ensino. O presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, vereador Salmito Filho (PT), promulgou ontem a Semana Frei Tito de Alencar em todas as escolas do município.

A Semana prevê debates e atividades sobre os direitos da pessoa humana, a serem desenvolvidos na semana do dia 10 de agosto. “É um reconhecimento da conquista pedagógica, que cultivará nas crianças o papel de cidadania” - destacou Salmito Filho, que contou à Câmara relatos do pai sobre a época da ditadura, quando o frade dominicano foi hóspede em sua casa. “É importante que a novas gerações tenham consciência do que foi aquele momento, para que se possa construir uma cidade cada vez mais democrática” - evidenciou.

Após a aprovação, foi apresentado o filme “Batismo de Sangue”, de Helvécio Ratton, que relata a participação dos dominicanos na resistência à ditadura militar e o martírio de Frei Tito. O sobrinho de Frei Tito, Carlos Alencar Lima, participou da sessão, representando toda a família do religioso.

Quem foi Frei Tito

O cearense Tito de Alencar Lima ingressou ainda jovem em manifestos políticos. Aos 18anos de idade, já era destaque da Juventude Estudantil Católica; aos 19 anos participava de manifestações estudantis contra a ditadura militar. Em 1968, aos 23 anos, foi preso pela primeira vez durante o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, SP. Fichado pela polícia, tornou-se alvo de perseguição da repressão militar.

No ano seguinte, juntamente com outros religiosos como Frei Betto, foi torturado durante três dias, continuamente. Nos porões da chamada “Operação Bandeirantes”, escreveu sobre a sua tortura e o documento correu pelo mundo. Em 1971, foi deportado para o Chile e, sob a ameaça de ser novamente preso, fugiu para a Itália. De Roma, foi para Paris, onde recebeu apoio dos dominicanos.

Traumatizado pela tortura que sofreu, Frei Tito submeteu-se a um tratamento psiquiátrico. Seu estado era instável, vivia uma agoniada alternância entre prisão e liberdade diante do passado. Via o espectro de seus algozes em todos os lugares. As torturas lhe cindiram a alma.

Sem jamais ter recuperado sua harmonia interior, em 10 de agosto de 1974. Frei Tito foi encontrado suspenso por uma corda, sob uma árvore, no jardim do convento de Lyon.



Foi enterrado no cemitério dominicano Sainte Marie de La Tourette, em Éveux. Em março de 1983, os restos mortais de Frei Tito chegaram ao Brasil. Mas, antes de ir para Fortaleza, passou por São Paulo quando foi celebrada uma missa, acompanhada por mais de quatro mil pessoas, com a participação dos bispos e por um grupo de sacerdotes, mais o arcebispo, Cardeal Paulo Evaristo Arns e demais lideranças sociais, repudiando a tragédia da tortura. A missa foi celebrada em trajes vermelhos, que é a cor usada em celebrações dos mártires.
(CM)

Fonte: São Paulo/Fortaleza, 11 ago (RV)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

NÓS, OS COARIENSES



Eloym Assunção

Ao completarmos 77 anos vivemos mais um momento de incerteza e instabilidade, mas também de esperança. A data comemorada hoje é referente à elevação de Coari à categoria de cidade em 1932, mas nossa história é bem maior que os poucos mais de sete dezenas comemoradas.

Possuímos uma história milenar, somos a terra que pertenceu aos Omáguas, Cambebas, Catauixis, Irijus, Jumas, Jurimauas, fomos a província de Machiparo, que fascinou Orellana.

Nossos primeiros habitantes tinham como uma de suas principais características a resistência, e assim foi contra espanhóis, portugueses, bandeirantes brasileiros.

Fomos alvo de uma guerra dita “justa”, que num primeiro momento visava a apropriação e posse da região e por conseqüência suas riquezas, que foram as chamadas “drogas de sertão”, que eram vendidas como especiarias na Europa, num outro momento foram os próprios nativos que passaram ser visto como mercadorias e passaram a ser caçados e escravizados para servir como mão- de- obra para a coroa portuguesa.

Este processo desestruturou as sociedades complexas existentes, como as províncias de Aparia, Arimocoa e a própria Machiparo. Todas essas viviam em um alto grau de desenvolvimento, possuíam uma estrutura social diversificada, uma agricultura auto-suficiente, além de hábitos, costumes e religiões autóctones.

O conflito com diversos invasores fez com que os nativos fossem obrigados a abandonar seus antigos lares, hábitos e costumes, era preciso fugir e se esconder, e atacar sempre que possível os inimigos que estavam mais bem preparados belicamente.


Isto não quer disser, que os nativos utilizavam somente a guerra para se defender, quando se sentiam acuados, apelavam para a política, realizando acordos jurídicos e tratados de trégua e de convivência pacífica. No entanto, ao se sentirem mais fortes voltavam à beligerância.

O descumprimento dos acordos pelos nativos irritava profundamente os invasores, que passaram a adotar táticas diferentes, a persuasão religiosa foi uma delas. Jesuítas, franciscanos, capuchinhos, beneditinos foram algumas das ordens religiosas determinantes para a configuração do mosaico geográfico atual da Amazônia.

E é graças a um Jesuíta o Padre Samuel Fritz, que funda em meados do século XVIII, o primeiro núcleo de povoamento, uma missão religiosa habitada a princípio por índios convertidos ao cristianismo.

Em 1759 a aldeia foi elevada a lugar com o nome de Alvelos. No ano de 1833, foi elevada à Vila de Coari. Em 1874, foi criado o município de Coari. Somente em 1932, Coari é elevada à categoria de cidade.

Nos últimos 77 anos fomos atores sociais dos diversos momentos históricos de nosso Estado e país, nascemos como cidade com a nova república de Getúlio Vargas, vimos a participação de vários brasileiros enfrentando novamente os seringais como soldados da borracha, encaramos e vencemos a ditadura militar.

Travamos uma guerra biológica contra a Sigatoca Negra que dizimou nossas plantações de bananas, nosso principal produto até meados do anos 1990, suportamos três grandes enchentes, 1953, 1999 e 2009 e a maior vazante dos últimos 100 anos, 2005.


Ganhamos uma nova província, a de Urucu, palco da exploração do Petróleo e Gás Natural, assim como nossa antiga Machiparo esta nova Província também encantou estrangeiros e aguçou a cobiça e a ganância.

Fomos alvos novamente de uma nova expropriação de nossas riquezas naturais, nossos governantes mancharam o nome de nossa terra. Passamos a ser conhecido em outras partes do estado como a “terra das malas”, a política em Coari virou sinônimo de escândalos e corrupção e prostituição.

Mas nossa gente é mais que isso, estamos mais vivos, ainda sorrimos, buscamos a felicidade constantemente, somo uma terra de teimosos, teimamos contra aqueles que querem tolir nossa liberdade, dominar nosso espírito, decidir nossos destinos, retirar nossas esperanças. Somos herdeiros dos Omáguas.

Somos mais que terra, água, Petróleo, Gás e coordenadas geográficas, somos mais que o concreto e o cimento, somos mais que uma cidade, somos um sentimento.

E esse sentimento é que nos aperta o peito, quando estamos longe, seja em Manaus. Maceió, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto alegre, ou mesmo outros países como: Holanda, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Bolívia.

Onde quer que estejamos, esse sentimento de pertencimento nos acompanha, talvez muitos não morem mais aqui, pelos mais diversos motivos, mais Coari mora em vocês que mesmo tão distante, sofrem e se alegram com as noticias deste povo. Quem em breve possamos viver dias melhores.

Parabéns a todos os Coarienses estejam aqui conosco ou não, que jamais possamos esquecer quem somos.


Fonte: Blog Crônicas de Coari

sexta-feira, 31 de julho de 2009

RORAIMA: UM ESTADO EM EVIDÊNCIA

*Luciney Araújo

A história do Estado de Roraima está diretamente ligada à estratégia da Coroa Portuguesa em expandir seus territórios na América do Sul, como também a busca por novas riquezas naturais como o ouro, além de afirmar sua supremacia no território cujo ameaça por parte de Espanhóis, Holandeses e Franceses era constante. Durante os anos de 1638 e 1639, o Padre Jesuíta Cristobal de Acuña e o Capitão-Mor Pedro Teixeira, realizam expedições ao longo do rio Negro indo até a foz do rio Branco, que segundo relatos de Acunã, “um braço que este rio (Negro) lança por onde, segundo informações, se vem a sair no rio grande, em cuja boca, no mar do norte, estão os Holandeses...” (Acuña,1641). Rio que até a primeira metade do século XVIII era a principal rota para as transações entre Holandeses e índios que moravam ao longo do Rio Branco. A partir do século XVII, chega a região do rio Branco o mercador de escravos Francisco Ferreira, faz explorações ao longo do rio, em busca das famosas drogas do sertão e o apresamento de indígenas para o trabalho escravo ao longo das explorações. Durante os anos de 1771 e 1773, os espanhóis, vindos através do rio Orenoco chegam ao rio Branco, se estabelecendo ao longo do rio Uraricoera, e foram responsáveis pela fundação dos primeiros povoados de Santa Rosa, São João Batista de Cada e de Santa Bárbara. Apesar de o rio Branco ter sido batizado pelo Português Pedro Teixeira em 1639, apenas no ano de 1775, é que a coroa portuguesa inicia a construção do Forte de São Joaquim, marco da presença lusitana no Estado.

A ocupação do Estado de Roraima se deu através dos aldeamentos indígenas, entre os anos de 1775 e 1779, durante esse período foram estabelecidas cinco comunidades ao longo dos rios Uraricoera, Branco e Tacutu, os quais seriam abandonados durante os anos de 1780 e 1781, cujo, os indígenas não aceitavam as condições impostas pelos portugueses. Durante o ano de 1784, os portugueses tentaram novamente realizar um aldeamento com os indígenas, mas a idéia fracassaria e no ano de 1790, aconteceria a grande revolta dos indígenas conhecida como “A Revolta da Praia do Sangue”.

Durante esse período se deu a introdução de gado, como uma estratégia lusitana para tentar garantir a manutenção do domínio português da região, buscando iniciar uma nova atividade econômica diferente do escravismo e do extrativismo, que permeavam a então capitania de São José do Rio Negro, que englobava toda a área do rio Branco. A primeira fazenda criada foi a de Rio Uraricoera e era denominada Fazenda São Bento, anos mais tarde fora fundada a Fazenda São Marcos no Rio Tacutu. Esta expansão da pecuária bovina serviu como primeiro movimento para a ocupação do território do Rio Branco e que mais tarde levaria a fundação do município de Boa Vista do Rio Branco, no ano de 1890.

No século XX, as mudanças ocorridas na Região Amazônica advindas do ciclo da Borracha, traz o aumento das necessidades de abastecimento de bens de consumo a Cidade de Manaus, que recebera um grande fluxo de pessoas em busca do sonho de riquezas nos Seringais, e com isso, Roraima, eleva sua produção e exportação de produtos bovinos, e um de seus principais compradores era a cidade de Manaus.

A atividade da pecuária no Estado de Roraima apresentava até meados de 1920, cerca de 300 mil cabeças de gados, nas quais eram criadas de formas livre, sem uso de cercas, ou arames que determinassem os limites entre as propriedades. Com o declínio da Borracha na região amazônica, a criação de gado em Roraima, cai para pouco mais de 140 mil cabeças.

No entanto um novo ciclo começaria na região do lavrado, era à busca do ouro, e uma leva cada vez maior de migrantes começam a aportar em terras roraimenses, garimpeiros que subiam a bacia do rio Branco em busca de riquezas, viagens em sua maioria feita através de uso de animais ou simplesmente a pé. Nos anos de 1949 o PIB de Roraima correspondia mais da metade da produção do Estado, cerca de 59,6% era oriunda das terras de garimpo e apenas 26,8¨% apenas correspondia a pecuária.


Foi apenas no ano de 1943 que a Cidade de Boa Vista foi desmembrada do Amazonas, tornando-se Capital do recém criado Território Federal do Rio Branco, e no ano de 1962 a palavra Roraima (junção de Roro-imã palavras da língua Permon-Ingarikó, que significa o Monte Verde), como nome oficial.

Através de incentivos do Governo Federal, o Estado de Roraima passa a receber um fluxo maior de migrantes, que vislumbravam o sonho de um novo Território. Novos assentamentos surgem, novos povos migram, novas culturas se formam. Sulistas, Nordestinos, Venezuelanos, entre outros, migram para as novas terras, que se tornaria Estado no ano de 1988.

Com o fechamento dos garimpos e a demarcação de Terras Indígenas, o Estado de Roraima vive hoje a expectativa dos Agronegócios, com solo propenso a plantação de novas culturas, como a soja, novas fronteiras agrícolas aportam por aqui. Novas perspectivas para a construção e afirmação desse cadinho da floresta, muitas vezes exaltado por pessoas que fazem de Roraima hoje um dos Estados promissores, acolhedor e que acima de tudo representa essa diversidade que é o Brasil, e que fazem com que o Roraimense ou o Roraimeiro sentir orgulho desse estado e reafirme a cada dia com orgulho “ser de Roraima
”.

*Antropólogo, Pesquisador do NCPAM e Membro do NAVI

terça-feira, 28 de julho de 2009

Z DA ZONA DE MANAUS, A ANTIGA



Thiago de Mello*

N
ão tinha a fama nem o prestígio da atual. E era genuinamente cabocla, embora em seus tempos dourados esbanjasse matéria-prima importada de vários países da Europa. É verdade que nunca chegou a ser de atração nacional, como a de agora. Mas era indiscutivelmente mais franca. Aberta a quem chegasse, não fazia acepção de pessoas: desde que fossem masculinas, donas de muita disposição e de um mínimo de capital. Era a zona das mulheres. De mulheres da vida, se dizia. Ou de mulheres que faziam a vida, expressão que sempre achei de sortilégio. Havia quem chamasse, nariz orgulhoso e torcido, a zona da prostituição, as ruas das raparigas.

Moça da família, os pais não permitiam que passassem pelos quarteirões daquelas ruas onde se exercia a mais antiga profissão do planeta, nas casas do meretrício. Perdão, do baixo meretrício, era assim que diziam, porventura a indicar a existência de um meretrício mais alto, quer dizer, mais caro e mais escondido. Ou talvez se tratasse de referência saudosa ao tempo das francesas de vestido longo e decotado da Pensão Floreaux, na rua Epaminondas, ou das que chegavam elegantíssimas e perfumadas, já madrugada alta, acompanhadas de cavalheiros de casaca, para uma ceia com champanhe no Bar Alemão ali na Marechal Deodoro à época do esplendor da borracha.

Para o povo a Zona era mesmo e simplesmente a zona, tout court, sem adjetivos. Ficava bem no centro da cidade, fraternalmente concentrada em trechos de quarteirões de ruas importantes. O eixo era a Saldanha Marinho: a mesma rua que abrigava moradias sóbrias e moradores austeros, abria-se para a vida alegre das pensões a partir da rua Joaquim Sarmento e só ia terminar lá na rua da Instalação, nos procuradíssimos bordeizinhos do último quarteirão enladeirado. Da Saldanha Marinho a Zona ganhava asas para as transversais Joaquim Sarmento e Logo D’Almada, um pouco para o lado da Sete de Setembro, outro pouco para as bandas da 24 de Maio. Casinhas da alvenaria colonial, soalhos de madeira que cantavam.

Mal a tarde começava a cair, a Zona, qual mulher sadia que desperta a dengosa se espreguiça, dava começo aos seus macios movimentos, com a chegada dos primeiros freqüentadores a fanar pelas esquinas e das primeiras caboclas, cabelos ainda molhados, ao parapeito das janelas. Só quando era já noite mesmo é que, até então mal-entreabertas, escancaravam-se as portas ou meia-portas, sobre as quais não faltava a famosa lanterna vermelha, em cujo brilho vagamente ardia um tição de tristeza.

O canto da Instalação com a Saldanha Marinho não marcava, porém, o limite da Zona, que a atravessava para alcançar outras ruas boêmias: a Itamaracá, a Frei José dos Inocentes. Por toda década de quarenta a Zona teve como lugar principal de bebida e de baile o Cabaré Chinelo, sábio e delicioso nome que o povo encontrou para substituir o Hotel Cassina, que no mesmo e bonito prédio funcionou até o fim da nossa belle epoque, freqüentado sôo por gente de finas libras esterlinas, não importava se oriundas das algibeiras de grosseiros coronéis de barranco.


Pensão da Lola: Ninguém pode negar que por todos aqueles anos quarenta a pensão da Lola, na Saldanha Marinho, era a melhor de todas as casas da Zona. É juízo unânime dos bons freqüentadores daquelas ruas. A numerosos deles agora consultei, e de todos a Lola teve o voto, ao qual com iniludível pena, não pude juntar o meu. Para que mentir? A verdade é que, naquelas noites, apenas estive perto, nunca tive acesso à boca da urna.

Era italiana, de sobrenome Ferdi. Alguma vez a contemplei descendo a Avenida: era elegante, alta, muito digna de leque abanando o rosto claro. Cuidava com esmero de sua moças, vigiava-lhes o asseio e a saúde. De índole romântica, sabia de cor o seu Dante, atirava de relance para a sua mesa, com abajur de centro, sempre bem concorrida, uma estrofe de Petrarca. Em contradição, ou talvez por coerência, a nenhuma das moças permitia histórias inventadas, choramingas, a justificar o passo mal dado que lhes abrira o caminho para a vida “não me venham com histórias. Estão aqui porque querem, estão aqui porque gostam. Fazem muito bem. Honrem a profissão. E tratem de não enganar ninguém”. Lola Ferdi morreu rica e triste, no começo dos 50. Famoso advogado de Manaus, leal amigo da dona-de-pensão presume-se que amigo de todas as horas, cumpriu o que ela, em testamento, lhe ditou: herdou os seus bens.

Consta que alguma parcela ficou destinada ao amparo de duas ou três de suas melhores moças já fatigadas.

*Escritor amazonense, autor de diversas obras de reconhecido valor mundial. Destaque para - Manaus, Amor e Memória, Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984. (p.247/49).

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A ESCRAVIDÃO NOS SERINGAIS

Vim pro Amazonas ganhar dinheiro, e não ganhei foi nada... O negócio da seringa só dava pra gente se aviar... Vivia naquela ilusão... Se eu tivesse no Ceará não queria saber mais do Amazonas.

Relato de um Seringueiro do Rio Madeira

Ricardo Lima*

Michel Foucault, influenciado por Friedrich Nietzsche, afirmara que por detrás da pompa dos hinos nacionais cantando a glória do nascimento da pátria, se esconde milhares de vidas sacrificadas nas guerras de unificação; e por detrás do mito da criação do mundo, encenando a beleza do jardim do Éden e a ingênua harmonia entre Adão e Eva, se esconde, na verdade, o parentesco com o macaco e, por sua vez, o cinzento laço com o verme...

A história, segundo o pensador francês, está repleta destas lendas que escondem um lado obscuro no fundo dos seus épicos versos, criados em favor de uma determinada gama de interesses. Cabe ao sociólogo e ao historiador desvendá-los — efetuando a arqueologia dos períodos históricos e das relações sociais.

Um dos exemplos mais típicos no Amazonas de fatos históricos mascarados por interesses escusos são as propagandas e historiografias oficiais com relação ao período áureo da borracha, mostrando-o como um tempo de grandes realizações, tanto no terreno das obras públicas quanto no âmbito social, ressaltando a riqueza produzida neste período e o aperfeiçoamento cultural pelo qual Manaus passara (a belle epóque, que nosso governo teima em reproduzir, de forma caricatural, em festivais de opera) nos quase trinta anos de pulsação da economia gomífera, como um dos períodos dos mais interessantes que a Paris dos Tristes Trópicos já teve.

Tal forma de ver a historia e as sociedades, tão comum em historiadores a direita do espectro político e na propaganda de governos populistas, interessados em criar uma bandeira pela qual possam arrancar certos dividendos políticos, nada mais é do que uma forma de mascarar a verdadeira e perversa dinâmica da qual é regida os períodos históricos e, em questão, a economia extrativa. Longe de ser um período de requinte social e cultural, o fausto da economia gomífera foi caracterizada pela exploração compulsória de homens e mulheres sob o regime hediondo do aviamento, e pelo fato absurdo de que, como dissera Euclides da Cunha, o homem trabalhava para escravizar-se.

Muitos já foram os estudos efetuados sobre o período áureo da economia gomífera, principalmente do ponto de vista histórico — a Ilusão do Fausto de Edinea Mascarenhas Dias é um dos exemplos mais famosos. Faltava, entretanto, um estudo de precisões mais sociológicas que enfocasse o modo de produção extrativista a partir não de acontecimentos ou datas, mas a partir das suas relações sociais e de como estes homens se comportavam frente à dicotomia de uma floresta cheia de perigos e de um sistema de compra e troca tão impiedoso.

Servidão Humana na Selva: O Aviamento e o Barracão nos seringais na Amazônia, de Carlos Correia Teixeira, vem tapar este buraco na sociologia sobre o modo de produção extrativista e se juntar ao seleto hall de obras que pensam a Amazônia criticamente, em contraposição a forma linear e conservadora de pensadores convencionais como André Vidal de Araújo, Álvaro Maia ou Samuel Bechimol. Apesar de ser um estudo efetuado na década de setenta, foi tese de mestrado do escritor, Servidão Humana está longe de ser um estudo defasado, longe disso, é um ensaio que vai até o cerne do acontecimento histórico, achando as descontinuidades das relações do seringal, destrinchando seu lado cinzento, recompondo arqueologicamente suas contradições, os dramas do trabalhador da seringa, seus sofrimentos e mesmo seus raros momentos de felicidade, sentindo-se um verdadeiro artista ao defumar a borracha: “é o maior prazer do mundo!” era a frase de um trabalhador contida do livro.

Dialogando com varias vertentes da sociologia, como por exemplo com o esquema de dominação patrimonial de Max Weber, o autor, contudo, centra-se no legado teórico de Karl Marx para a sua análise de cada um dos aspectos das relações tecidas no seringal.

Muito interessante é a afirmação de que o barracão é a nossa versão dos engenhos, criando uma complexa rede de relações sociais que ainda não foram devidamente estudadas — pelo menos no que tange a sociologia.

O seringal, segundo Carlos Teixeira, mesmo depois de quase um século passado desde o fim da preponderância extrativista, sua organização persistiu e ultrapassou mais de um século.

Mais de trezentos mil nordestinos vieram para a região Amazônica a partir da década de setenta do século XIX. Boa parte destes pobres diabos provenientes do Ceará — iludidos com a promessa de enriquecimento fácil. Contudo, quando aqui chegavam, o véu de suas ilusões era brutalmente estraçalhado pela cruel realidade de ter estarem sujeitos a um regime que, já os fazendo endividados desde o momento em que ali chegavam, os fazia trabalhar mais de dezoito horas por dia.

Sozinhos nos seringais, sem uma legislação trabalhista ou qualquer autoridade que pudesse inferir por eles, os seringueiros eram largados aos próprios caprichos do seringalista, que os explorava desde a adulteração dos preços das mercadorias vendidas no barracão, até nos pesos da borracha quando de sua venda ao senhoril. Muitas eram os historias de abusos e crueldades contra o seringueiro que tentasse fugir ou cogitasse vender a borracha ao regatão — vale dizer que este era um fator de instabilidade ao poder tirânico do seringalista, travar negócios clandestinamente com o seringueiro. Teixeira menciona uma história, contada pelos seringueiros mais antigos, de um grande buraco cheio de cobras onde o patrão costumava jogar aqueles que fizessem frente ao seu poder.

Os seringalistas, verdadeiros senhores feudais na selva, nunca tiveram, de fato, uma mentalidade empreendedora. Sua forma de gerir seus negócios estava muito mais para um pré-capitalismo rudimentar de típico de nobrezas decadentes. Não se preocupavam em aperfeiçoar as técnicas de trabalho em seus seringais. A situação como estava já os satisfazia. Hauriam enormes lucros de suas propriedades, gozavam de enorme conforto, tinham ao redor de si esposas, servos e amantes. Seus filhos estudavam nas melhores escolas do país e do exterior. No final de cada fabrico iam gastar suas fortunas nos centros econômicos do Brasil ou da Europa. Tinham o poder de colocar seus apadrinhados nas esferas de poder para que defendessem seus interesses frente ao Estado. Eram na verdade, uma casta parasita que desfrutava os privilégios de uma economia predatória e de enclave, cujos resultados estavam voltados para fora — não é assim o mesmo com o nosso decadente pólo industrial?

Durante a época da pesquisa o escritor detectou que ocorria uma flagrante mudança nas relações produzidas no seringal. Outrora predominantemente as relações do toco: em que o seringueiro tinha uma casa disponibilizada pelo patrão, assim como as estradas, equipamento e mercadorias para consumo e de sua família, assim deveria fornecer determinada quantidade de borracha por fabrico ao senhoril; entretanto, o toco vinha a transmutar-se em regime de gleba, onde o seringueiro passa a arrendar uma faixa de terra com sua família e, além de extrair a borracha, desenvolve a agricultura, pagando ao seringalista o aluguel desta em víveres ou em dinheiro.

A servidão humana, infelizmente, não era uma característica típica nos seringais da Amazônia, estendendo-se também para outros ramos da atividade capitalista, como por exemplo, o grande latifúndio monocultor do sul do Pará e sul do Amazonas, onde milhares de vidas são reduzidas e reles condição de coisa.

Quem sabe para a próxima edição o autor providencia um capitulo sobre a situação atual dos seringais estudados no livro, Juma e Três Casas, e outro sobre formas de organização sindical dos seringueiros na região estudada — a região do Rio Madeira, onde também nascera Carlos Teixeira.

Servidão Humana na Selva torna-se, desde seu lançamento, uma referencia obrigatória para quem estiver interessado em estudar os seringais, suas contradições, desmandos e crueldades com que essa variante do modo capitalista de produção subordina o homem.

*Aluno de Ciências Sociais pela UFAM, Editor e Pesquisador do NCPAM

terça-feira, 14 de julho de 2009

UMA BREVE ANÁLISE SOBRE RIQUEZA E PODER




Lena Andréa Muniz*

Para fundamentar os estudos recorre-se a uma breve análise dos capítulos do livro de Leo Huberman – História da Riqueza do Homem e Sacerdotes, Guerreiros e Trabalhadores, Ouro, Riqueza e Glória do qual se utilizou para retratar as várias manifestações do poder, tais quais: o poder do Estado, do Rei, da Igreja e das demais classes dominadoras, onde manda quem pode e obedece quem quer ir para o céu.

No entanto, para se dar continuidade se faz necessário conceituar a palavra poder. De acordo com Corssetti.

“a palavra poder designa a capacidade ou possibilidade de agir, produzir efeitos. Esta designação pode ser referida tanto a uma dimensão social envolvendo indivíduos ou grupos humanos como a fenômenos de ordem física natural”.

Sacerdotes, guerreiros e trabalhadores.

Ao logo desse primeiro capítulo do livro supracitado, o autor faz uma exposição de como se davam as relações entre as classes servis, nobre e clero, tomando como pano de fundo o sistema econômico denominado feudalismo.

De acordo com HUBERMAN (1997) as terras agrícolas em grande parte da Europa Ocidental e Central, dividiam-se em feudos.

Como característica principal do feudalismo, ressalta-se que as terras eram dividas em duas partes, uma pertencente ao senhor do feudo e a outra parte era dividida entre os arrendatários (mansos).

As condições em que viviam os camponeses eram de extrema miséria, trabalhando arduamente nas faixas de terras espalhadas. Existiam vários graus de servidão: os servos de domínio viviam permanentemente ligados à casa do senhor; os fronteiriços camponeses paupérrimos mantinham pequenos arrendamentos de um hectare; os aldeões que possuíam só uma cabana e deviam para o senhor em troca de comida, não possuíam arrendamento.

A riqueza era determinada por um único fator – a terra, ou seja, quanto mais se possuía terra mais poder se possuíam, mais servos se tinha.

Uma das maiores proprietárias de terras do período feudal foi à igreja. A maior, mais poderosa e mais duradoura que qualquer outra coroa. Algum nobre em suas conquistas se apoderava das terras de seus inimigos e doavam parte à igreja que detinha esse poder sobre os nobres, às vezes o poder do clero superava o poder da coroa visto que a igreja era a possuidora das chaves do céu, que de certa forma vendia àqueles que podiam pagar, em dinheiro, pelo purgamento de seus pecados, inclusive poderiam pagar de forma antecipada por algum tipo de pecado que haveriam de cometer.

Tanto o senhor quanto o servo contribuíam para o enriquecimento da igreja, aumentando assim o controle e o patrimônio da igreja, tornando-a a maior senhora feudal, ou seja, o clero e a nobreza nesse período constituíam as classes dominantes.

Portanto, observa-se que os servos não tinham direitos e eram dominados tanto pelo senhor quanto pela igreja. Os camponeses trabalham dias a fio para o senhor e em nas suas terras, plantavam, colhiam, e viviam em função do senhor da terra, e sempre continuavam devendo a ele.

A igreja por sua vez incentiva de certa forma esse tipo de escravidão, pois prestava ajuda espiritual tanto para o senhor quanto para o servo. Uma das formas de manter o poder do senhor sobre o servo era levando o servo a pensar que a sua situação de escravo era uma dádiva do céu, ou seja, usava-se uma passagem bíblica que diz: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de agulha que um rico entrar no reino do céu, e assim o servo não se rebelava contra o senhor, pois de acordo com seu entendimento a sua condição de pobreza era a vontade de Deus.

Outra forma de a igreja manter seu poderio era impedindo que se fizessem empréstimos a juros, ou seja, a igreja proibia a usura, alegando que a usura era pecado, e que quem enriquecesse através dessa pratica seria excomungado e não herdaria o reino dos céus. Porém, a própria igreja emprestava, para os comerciantes, arrendatários, para o senhor, inclusive, valores a juros, ou seja, ela usava daquela máxima que diz; faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. A proibição era uma forma de diminuir a concorrência e ela continuar mantendo o controle de ambos os lados.

Por fim, não havia um governo forte na idade Média capaz de se encarregar de tudo. A organização, no todo, baseava-se num sistema de deveres e obrigações do principio ao fim. A posse da terra não significa que se pudesse fazer dela o que agradasse.

O que se pode acrescentar sobre a narrativa acima é o que cita Eduardo Corssetti, em seu texto, Poder e Poder Político:

“... de que o poder é constituído por uma situação processual em que um dos atores impõe um comportamento ou atitudes, que contrariam interesse, para, em virtude disso, realizar os seus próprios, buscando assim, determinados benefícios.”

Ou seja, utilizando a máxima de Maquiavel, em sua obra “O Príncipe” que afirma que “os fins justificam os meios”, ou seja, para que tanto os senhores quanto a igreja detivessem o poder não importava a situação em se encontrava o servo, ou que deturpação haveria de se fazer sobre o que rege a bíblia, pois a interpretação desta varia de acordo com o interesse de quem dela se utiliza.

De acordo com Corsseti, o efeito sobre o subordinado é o de torná-lo disciplinado por adesão, através do convencimento de que tal situação deve ser determinada modo e não de outro. A ideologia do dominante frente ao subordinado funciona na pratica em dois planos simultâneos : A racionalização do dominante e a motivação do dominado.

A racionalização do dominante e a motivação do dominado é contemplado na questão do clero quando mantêm o poder sobre o senhor que diante de suas conquistas divide com esta dando-lhes boa parte de sua riqueza como forma de alcançar seus objetivos, incluindo alcançar o reino dos céus.

O dominado na figura do servo, ao aceitar sua condição de escravo mantendo sua servidão sem revolta contra seu escravizador, mesmo sendo o senhor nessa relação o maior dependente, na questão da sobrevivência diária, pois sem o servo o senhor teria que fazer tudo àquilo que eles faziam para manter a reserva senhorial funcionando, sendo eles responsáveis pela manutenção do senhor, quando produzem tudo que o senhor precisar desde alimentos até vestuários, e por muitas vezes sentindo-se gratos àqueles (opressores) por se acharem dadivosos quando se sentem esperançosos de ter descanso eterno, acreditando na vida aos a morte, situação essa mantida através dos dogmas da igreja.

“Ouro, riqueza e glória”

Leo Huberman, analisa e discute no capítulo XI e XII – Ouro, Grandeza e Glória, onde a preocupação girava em torna das riquezas de um país. Os governos ambicionavam riqueza e poder, assim interferiam na vida de seus tributários (súditos), moldando e regulamentando em prol desses objetivos, essa interferência na vida da sociedade, encaixou-se nos moldes do sistema mercantil.

O princípio de todo o sistema mercantilista se dava pela exploração das colônias em busca de metais preciosos, a sua posse, ou seja, o total de metais preciosos que um país possuía era o índice de riqueza e poder.

Assim, muitos paises proibiram a exportação de metais para que fosse preservado em seus paises e fossem vistos como paises ricos e poderosos.

Eduardo Corsseti, em seu livro Poder e Poder Político cita que:

“O alcance dos processos de poder dependem da recorrência aos recursos que sustentam a relação e que se constituem nos meios pelos quais se realiza tanto a possibilidade da assimetria como a das sanções”.

(...)

“O subordinado age de acordo com que presumidamente desejaria o dominante , com receios das punições”.

(...)

As relações de mando e obediência que emergem da política , estão baseadas , além das coisas materiais, em hábitos, sobretudo na obediência...,”

Os mercantilistas afirmavam positivamente sobre o fomento da indústria, pois o seu crescimento não representava somente um aumento nas exportações e no favorecimento da balança comercial, porém aumentava, também, o índice de emprego. Este pensamento surgia em uma época em que existia um grande número de mendigos e desempregados, o que corroborava a tese de que consolidar o poder e as riquezas nacionais era uma necessidade, pois consequentemente manteria a boa forma dos súditos.

Os comerciantes almejavam grande parte dos lucros das companhias monopolizadoras privilegiadas, quando tentaram participar, foram excluídos, por esses motivos ansiavam pelo comércio livre. Os governos por sua vez queriam incentivar a indústria, porém, não poderiam fazer, pois ao ajudar uma classe automaticamente prejudica a outra, e como não poderia ser diferente a classe prejudicada protestavam.

Os constantes protestos devidos às políticas protecionistas. Os mercados estavam insatisfeitos com as restrições mercantilistas, queriam modificações que melhorassem seus negócios, então, defendiam a política que melhor traria riqueza e prosperidade ao país.

O que se pode observar é que em suma todos ambicionavam pelo poder, e a partir do momento que se sentissem acuados ou prejudicados em algum tipo de medida protestavam, o que deixa bem claro que o que Corssetti ressalta em Poder e o Poder Político que:

... deve-se saber que a força constitui um dos dados do poder, mesmo que possa vir a se constituir num dos mais canhestros de serem alcançados aos objetivos.

Economista e professora da UFAM


Referência:

CORSSETTI, Eduardo. Poder e Poder Político In., Marcelino, Nelson (ORG.) Introdução às Ciências Sociais. São Paulo (Campinas): papirus, 1987.

HUBERMAN, Leo. A Historia da Riqueza do Homem. 21 ed. LTC. Rio de Janeiro, 2009.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução Maria Lucia Cumo. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1996 –

quarta-feira, 15 de abril de 2009

CULTURA SENTIMENTAL DO SÃO RAIMUNDO

O conceito cultura sentimental é relativamente novo, mas tem fundamento na tradição fenomenológica, que muito tem influenciado o saber antropológico no contexto das ciências sociais. Sua definição teórica está intrinsecamente ligada à memória social e suas implicações epistemológicas quanto à compreensão de comunidade. Diferentemente de memória social, que trabalha a narrativa numa perspectiva de reconstituição de experiências pessoais a partir da percepção dos fatos vivenciados pelos atores, a cultura sentimental volta-se para o significado das experiências que orientam as relações sociais dos comunitários e também para os significantes recorrentes a reminiscência dos atores sociais

Khemerson Macedo*

Entre fevereiro e março de 2009, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em parceria com a Supernova Filmes e do professor e antropólogo José Ademir Gomes Ramos, desenvolveu pesquisa etnográfica no bairro manauara de São Raimundo. A pesquisa insere-se no projeto Paisagens culturais do Rio Negro, com o intuito de inventariar determinadas comunidades ribeirinhas das margens do Rio Negro. Neste primeiro momento, o trabalho compreendeu pesquisa de campo com os moradores antigos do lugar, possibilitando interpretar a construção do espaço como valor sentimental e comunal destes comunitários, identificando as famílias tradicionais do lugar, lugares de referência e as relações afetivas e de trabalho ali estabelecidas.

Nesta perspectiva, a pesquisa etnográfica se baseou em conceitos-chaves que, articulados aos dados empíricos coletados possibilitou definir as paisagens culturais do São Raimundo e como estas paisagens influem no cotidiano destes comunitários. Tais conceitos possibilitaram refletir acerca das narrativas coletadas, objetivando definir a relação do bairro como rio e seus tributários.

Para a definição do espaço da pesquisa adotamos a perspectiva de construção social da realidade, de BERGER & LUCKMANN (1973, p. 157): “sendo produtos históricos da atividade humana, todos os universos socialmente construídos modificam-se, e a transformação é realizada pela ação concreta do homem”. A idéia de espaço neste trabalho refere-se às ações do homem em seu ambiente de moradia, justificando a apropriação do lugar a partir da ação direta do comunitário com o espaço culturalmente determinado.

Desta relação, como concebemos sua organização interna?

Ao pensarmos a relação do ribeirinho com seu ambiente, levamos em conta que esta relação ultrapassa a necessidade de subsistência, desenvolvendo uma dimensão simbólica carregada de sentimento e afetividade, manifesto no modo de vida dessas populações, que tem nos rios uma importante referência para a formação de suas práticas culturais. Tais práticas culturais transformam as paisagens naturais disponíveis em paisagens culturais, dando uma dimensão simbólica ao uso comunal da flora e fauna aquática presente nos corpos d’água configurados no imaginário coletivo na forma dos encantados.

Quanto esta relação, concebemos sua organização social do espaço a partir dos
conceitos de labor, trabalho e ação em Hannah Arendt, visto que:

[O labor] assegura não apenas a sobrevivência do individuo, mas a vida da espécie. O trabalho e seu produto (...), emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do tempo humano. A ação, (...) cria a condição para a lembrança, ou seja, para a história (Arendt, 1981, p. 16).

Labor, trabalho e ação nos permitem pensar a respeito da memória social, enquanto ação humana responsável pela produção e preservação da lembrança a partir de experiências concretas. Neste sentido, recorremos às considerações de Ecléia Bosi sobre o tema:

(...) Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, "tal como foi", e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto de vista (Bosi, 1994, p.55)


A obra de Bosi fundamenta a etnografia em questão ao privilegiar as narrativas dos personagens populares e famílias tradicionais locais. Desta forma as narrativas apresentam-se como reminiscências surgidas a partir da rememoração dos comunitários, justificando, assim, as histórias individuais a partir das experiências passadas, transmitidas pelos seus pares. Convém observar que as lembranças criam nos comunitários processos de identificação, fortalecendo a tradição comunal e expressando uma forte cultura sentimental em relação à vida em comunidade.

O conceito cultura sentimental é relativamente novo, mas tem fundamento na tradição fenomenológica, que muito tem influenciado o saber antropológico no contexto das ciências sociais. Sua definição teórica está intrinsecamente ligada à memória social e suas implicações epistemológicas quanto à compreensão de comunidade.

Diferentemente de memória social, que trabalha a narrativa numa perspectiva de reconstituição de experiências pessoais a partir da percepção dos fatos vivenciados pelos atores, a cultura sentimental volta-se para o significado das experiências que orientam as relações sociais dos comunitários e também para os significantes recorrentes a reminiscência dos atores sociais, “[fundamentando] a cadeia da tradição, que transmite os acontecimentos de geração em geração” (Benjamin, 1996, p. 211).

Ao nos debruçarmos sobre um conceito relativamente novo, temos como desafio a incompreensão imediata sobre a matéria. Contudo, salientemos que o conceito cultura sentimental encontra-se em processo de formulação e discussão no âmbito acadêmico, uma vez que os conceitos articulados aos dados empíricos coletados nos dão uma idéia mais clara sob qual caminho tomar, levando em consideração a perspectiva multidisciplinar a ser adotada sobre a temática em curso. Este artigo, portanto, assume um caráter ensaístico em relação a sua proposta inicial.

* O autor é Coordenador de Pesquisa do NCPAM

Foto: NCPAM

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"COM LIBERDADE TOTAL PARA O MERCADO, QUEM ATENDE AOS POBRES?"

Em entrevista publicada no jornal Página 12, o historiador britânico Eric Hobsbawm fala da crise atual e de suas possíveis implicações políticas. Para ele, o mundo está entrando em um período de depressão e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, são o crescimento da xenofobia e da extrema-direita. Hobsbawm destaca o que está acontecendo na América Latina e elogia o presidente brasileiro. "É o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles".

Martin Granovsky

Em junho ele completa 92 anos. Lúcido e ativo, o historiador que escreveu "Rebeldes Primitivos", "A Era da Revolução" e a "História do Século XX", entre outros livros, aceitou falar de sua própria vida, da crise de 30, do fascismo e do antifascismo e da crise atual. Segundo ele, uma crise da economia do fundamentalismo de mercado é o que a queda do Muro de Berlim foi para a lógica soviética do socialismo.

Hobsbawm aparece na porta da embaixada da Alemanha, em Londres. São pouco mais de três da tarde na bela Belgrave Square e se enxergam as bandeiras das embaixadas por trás das copas das árvores. De óculos, chapéu na cabeça e um casaco muito pesado, cumprimenta. Tem mãos grandes e ossudas, mas não parecem as mãos de um velho. Nenhuma deformação de artrite as atacou. Rapidamente uma pequena prova demonstra que as pernas de Hobsbawm também estão em boa forma. Com agilidade desce três degraus que levam do corrimão a calçada. Parece enxergar bem. Tem uma bengala na mão direita. Não se apóia nela, mas talvez a use como segurança, em caso de tropeçar, ou como um sensor de alerta rápido que detecta degraus, poças e, de imediato, o meio-fio da calçada. Hobsbawm é alto e magro. Uns oitenta e bicos. Não pede ajuda. O motorista do Foreign Office lhe abre a porta esquerda do jaguar preto. Entra no carro com facilidade. O carro é grande, por sorte, e cabe, mas a viagem é curta.

- Acabo de me encontrar com um historiador alemão, por isso estou na embaixada, e devo voltar – avisa. Ele chegou de visita a Londres e quis conversar com alguns de nós. Sei que vamos a Canning House. Está bem. Poucas voltas, não?

O carro dá meia volta na Belgrave Square e pára na frente de outro palacete branco de três andares, com uma varanda rodeada de colunas e a porta de madeira pesada. Por algum motivo mágico o motorista de cabelos brancos com uma mecha sobre o rosto, traje azul e sorridente como um ajudante do inspetor Morse de Oxford, já abre a porta a Hobsbawm. Entre essas construções tão parecidas, a elegância do Jaguar o assemelha a uma carruagem recém polida. O motorista sorri quando Hobsbawm desce. O professor lhe devolve a simpatia enquanto sobe com facilidade num hall obscuro. Já entrou em Canning House e à direita vê uma enorme imagem de José de San Martin. À esquerda do corredor, uma grande sala. O chá está servido. Quer dizer, o chá, os pães e uma torta. Outro quadro do mesmo tamanho que o de San Martin. É Simon Bolívar. E também é Bolívar o cavalheiro do busto sobre o aparador.

Quanto chá tomaram Bolívar e San Martin antes de saírem de Londres para a América do Sul, em princípios do século XIX, para cumprir seus planos de independência?

Hobsbawm pega a primeira taça e quer ser quem faz a primeira pergunta.

- Como está a Argentina? - interroga mas não muito, porque não espera e comenta – No ano passado Cristina esteve para vir a Londres para uma reunião de presidentes progressistas e pediu para me ver. Eu disse sim, mas ela não veio. Não foi sua culpa. Estava no meio do confronto com a Sociedade Rural.

Hobsbawm fala um inglês sem afetação nem os trejeitos de alguns acadêmicos do Reino Unido. Mas acaba de pronunciar “Sociedade Rural” em castellhano.

- O que aconteceu com esse conflito?

Durante a explicação, o professor inclina a cabeça, mais curioso que antes, enquanto com a mão direita seu garfo tenta cortar a torta de maçã. É uma tarefa difícil. Então se desconcentra da torta e fixa o olhar esperando, agora sim, alguma pergunta.

- O mundo está complicado – afirma ainda mantendo a iniciativa. Não quero cair em slogans, mas é indubitável que o Consenso de Washington morreu. A desregulação selvagem já não é somente má: é impossível. Há que se reorganizar o sistema financeiro internacional. Minha esperança é que os líderes do mundo se dêem conta de que não se pode renegociar a situação para voltar atrás, senão que há que se redesenhar tudo em direção ao futuro.

A Argentina experimentou várias crises, a última forte em 2001. Em 2005 o presidente Néstor Kirchner, de acordo com o governo brasileiro, que também o fez, pagou ao FMI e desvinculou a Argentina do organismo para que o país não continuasse submetido a suas condicionalidades.

- É que a esta altura se necessita de um FMI absolutamente distinto, com outros princípios que não dependam apenas dos países mais desenvolvidos e em que uma ou duas pessoas tomam as decisões. É muito importante o que o Brasil e a Argentina estão propondo, para mudar o sistema atual. Como estão as relações de vocês?

- Muito bem

- Isso é muito importante. Mantenham-nas assim. As boas relações entre governos como os de vocês são muito importantes em meio a uma crise que também implica riscos políticos. Para os padrões estadunidenses, o país está girando à esquerda e não à extrema direita. Isso também é bom. A Grande Depressão levou politicamente o mundo para a extrema direita em quase todo o planeta, com exceção dos países escandinavos e dos Estados Unidos de Roosevelt. Inclusive o Reino Unido chegou a ter membros do Parlamento que eram de extrema direita [e começa a entrevista propriamente].

- E que alternativa aparece?

- Não sei. Sabe qual é o drama? O giro à direita teve onde se apoiar: nos conservadores. O giro à esquerda também teve em quem descansar: nos trabalhistas.

- Os trabalhistas governam o Reino Unido.

- Sim, mas eu gostaria de considerar um quadro mais geral. Já não existe esquerda tal como era.

- Isso lhe é estranho?

- Faço apenas o registro.

- A quê se refere quando diz “a esquerda tal como era”?

- Às distintas variantes da esquerda clássica. Aos comunistas, naturalmente. E aos socialdemocratas. Mas, sabe o que acontece? Todas as variantes da esquerda precisam do Estado. E durante décadas de giro à direita conservadora, o controle do Estado se tornou impossível.

- Por que?

- Muito simples. Como você controla o estado em condições de globalização? Convém recordar que, em princípios dos anos 80 não só triunfaram Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Na França, François Miterrand não obteve uma vitória.

- Havia vencido para a presidência dem 1974 e repetiu a vitória em 1981.

- Sim. Mas quando tentou uma unidade das esquerdas para nacionalizar um setor maior da economia, não teve poder suficiente para fazê-lo. Fracassou completamente. A esquerda e os partidos socialdemocratas se retiraram de cena, derrotados, convencidos de que nada se podia fazer. E, então, não só na França como em todo mundo ficou claro que o único modelo que se podia impor com poder real era o capitalismo absolutamente livre.

- Livre, sim. Por que diz “absolutamente”?

- Porque com liberdade absoluta para o mercado, quem atende aos pobres? Essa política, ou a política da não-política, é a que se desenvolveu com Margareth Thatcher e Ronald Reagan. E funcionou – dentro de sua lógica, claro, que não compartilho – até a crise que começou em 2008. Frente à situação anterior a esquerda não tinha alternativa. E frente a esta? Prestemos atenção, por exemplo, à esquerda mais clássica da Europa. É muito débil na Europa. Ou está fragmentada. Ou desapareceu. A Refundação Comunista na Itália é débil e os outros ramos do ex Partido Comunista Italiano estão muito mal. A Esquerda Unida na Espanha também está descendo ladeira abaixo. Algo permaneceu na Alemanha. Algo na França, como Partido Comunista. Nem essas forças, nem menos ainda a extrema esquerda, como os trotskistas, e nem sequer uma socialdemocracia como a que descrevi antes alcançam uma resposta a esta crise a seus perigos, contudo. A mesma debilidade da esquerda aumenta os riscos.

- Que riscos?

- Em períodos de grande descontentamento como o que começamos a viver, o grande perigo é a xenofobia, que alimentará e será por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscará? Buscará atrair os “estúpidos” cidadãos que se preocupam com seu trabalho e têm medo de perdê-lo. E digo estúpidos ironicamente, quero deixar claro. Porque aí reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mudá-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade não foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intolerável. Também teriam sido politicamente intoleráveis a liberdade absoluta e a desregulação absoluta em matéria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depressão.

- Você ainda tem dúvidas de que entraremos em depressão?

- Se você quiser posso falar tecnicamente, como os economistas, e quantificar trimestres. Mas isso não é necessário. Que outra palavra pode se usar para denominar um tempo em que muito velozmente milhões de pessoas perdem seu emprego? De qualquer maneira, até o momento no vejo um cenário de uma extrema direita ganhando maioria em eleições, como ocorreu em 1933, quando a Alemanha elegeu Adolf Hitler. É paradoxal, mas com um mundo muito globalizado um fator impedirá a imigração, que por sua vez aparece como a desculpa para a xenofobia e para o giro à extrema direita. E esse fator é que as pessoas emigrarão menos – falo em termos de emigração em massa – ao verem que nos países desenvolvidos a crise é tão grave. Voltando à xenofobia, o problema é que, ainda que a extrema direita não ganhe, poderia ser muito importante na fixação da agenda pública de temas e terminaria por imprimir uma face muito feia na política.

- Deixemos de lado a economia, por um momento. Pensando em política, o que diminuiria o risco da xenofobia?

- Me parece bem, vamos à prática. O perigo diminuiria com governos que gozem de confiança política suficiente por parte do povo em virtude de sua capacidade de restaurar o bem-estar econômico. As pessoas devem ver os políticos como gente capaz de garantir a democracia, os direitos individuais e ao mesmo tempo coordenar planos eficazes para se sair da crise. Agora que falamos deste tema, sabe que vejo os países da América Latina surpreendentemente imunes à xenofobia?

- Por que?

- Eu lhe pergunto se é assim. É assim?

- É possível. Não diria que são imunes, se pensamos, por exemplo, no tratamento racista de um setor da Bolívia frente a Evo Morales, mas ao menos nos últimos 25 anos de democracia, para tomar a idade da democracia argentina, a xenofobia e o racismo nunca foram massivos nem nutriram partidos de extrema direita, que são muito pequenos. Nem sequer com a crise de 2001, que culminou o processo de destruição de milhões de empregos, apesar de que a imigração boliviana já era muito importante em número. Agora, não falamos dos cantos das torcidas de futebol, não é?

- Não, eu penso em termos massivos.

- Então as coisas parecem ser como você pensa, professor. E, como em outros lugares do mundo, o pensamento da extrema direita aparece, por exemplo, com a crispação sobre a segurança e a insegurança das ruas.

- Sim, a América Latina é interessante. Tenho essa intuição. Pense num país maior, o Brasil. Lula manteve algumas idéias de estabilidade econômica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os serviços sociais e a distribuição. Alguns dizem que não é suficiente...

- E você, o que diz?

- Que não é suficiente. Mas que Lula fez, fez. E é muito significativo. Lula é o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas prévios às últimas eleições. Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos.

- E você pensa que serão de anos de depressão mundial

- Sim. Lamento dizê-lo, mas apostaria que haverá depressão e que durará alguns anos. Estamos entrando em depressão. Sabem como se pode dar conta disso? Falando com gente de negócios. Bom, eles estão mais deprimidos que os economistas e os políticos. E, por sua vez, esta depressão é uma grande mudança para a economia capitalista global.

- Por que está tão seguro desse diagnóstico?

- Porque não há volta atrás para o mercado absoluto que regeu os últimos 40 anos, desde a década de 70. Já não é mais uma questão de ciclos. O sistema deve ser reestruturado.

- Posso lhe perguntar de novo por que está tão seguro?

- Porque esse modelo não é apenas injusto: agora é impossível. As noções básicas segundo as quais as políticas públicas deviam ser abandonadas, agora estão sendo deixadas de lado. Pense no que fazem e às vezes dizem, dirigentes importantes de países desenvolvidos. Estão querendo reestruturar as economias para sair da crise. Não estou elogiando. Estou descrevendo um fenômeno. E esse fenômeno tem um elemento central: ninguém mais se anima a pensar que o Estado pode não ser necessário ao desenvolvimento econômico. Ninguém mais diz que bastará deixar que o mercado flua, com sua liberdade total. Não vê que o sistema financeiro internacional já nem funciona mais? Num sentido, essa crise é pior do que a de 1929-1933, porque é absolutamente global. Nem os bancos funcionam.

- Onde você vivia nesse momento, no começo dos anos 30?

- Nada menos que em Viena e Berlim. Era um menino. Que momento horroroso. Falemos de coisas melhores, como Franklin Delano Roosevelt.

- Numa entrevista para a BBC no começo da crise você o resgatou.

- Sim, e resgato os motivos políticos de Roosevelt. Na política ele aplicou o princípio do “Nunca mais”. Com tantos pobres, com tantos famintos nos Estados Unidos, nunca mais o mercado como fator exclusivo de obtenção de recursos. Por isso decidiu realizar sua política do pleno emprego. E desse modo não somente atenuou os efeitos sociais da crise como seus eventuais efeitos políticos de fascistização com base no medo massivo. O sistema de pleno emprego não modificou a raiz da sociedade, mas funcionou durante décadas. Funcionou razoavelmente bem nos Estados Unidos, funcionou na França, produziu a inclusão social de muita gente, baseou-se no bem-estar combinado com uma economia mista que teve resultados muito razoáveis no mundo do pós-Segunda Guerra. Alguns estados foram mais sistemáticos, como a França, que implantou o capitalismo dirigido, mas em geral as economias eram mistas e o Estado estava presente de um modo ou de outro. Poderemos fazê-lo de novo? Não sei. O que sei é que a solução não estará só na tecnologia e no desenvolvimento econômico. Roosevelt levou em conta o custo humano da situação de crise.

- Quer dizer que para você as sociedades não se suicidam.
(Pensa) – Não deliberadamente. Sim, podem ir cometendo erros que as levam a catástrofes terríveis. Ou ao desastre. Com que razoabilidade, durante esses anos, se podia acreditar que o crescimento com tamanho nível de uma bolha seria ilimitado? Cedo ou tarde isso terminaria e algo deveria ser feito.

- De maneira que não haverá catástrofe.

- Não me interessam as previsões. Observe, se acontece, acontece. Mas se há algo que se possa fazer, façamos-no. Não se pode perdoar alguém por não ter feito nada. Pelo menos uma tentativa. O desastre sobrevirá se permanecermos quietos. A sociedade não pode basear-se numa concepção automática dos processos políticos. Minha geração não ficou quieta nos anos 30 nem nos 40. Na Inglaterra eu cresci, participei ativamente da política, fui acadêmico estudando em Cambridge. E todos éramos muito politizados. A Guerra Civil espanhola nos tocou muito. Por isso fomos firmemente antifascistas.

- Tocou a esquerda de todo o mundo. Também na América Latina

- Claro, foi um tema muito forte para todos. E nós, em Cambridge, víamos que os governos não faziam nada para defender a República. Por isso reagimos contra as velhas gerações e os governos que as representavam. Anos depois entendi a lógica de por quê o governo do Reino Unido, onde nós estávamos, não fez nada contra Francisco Franco. Já tinha a lucidez de se saber um império em decadência e tinha consciência de sua debilidade. A Espanha funcionou como uma distração. E os governos não deviam tê-la tomado assim. Equivocaram-se. O levante contra a República foi um dos feitos mais importantes do século XX. Logo depois, na Segunda Guerra...

- Pouco depois, não? Porque o fim da Guerra Civil Espanhola e a invasão alemã da Tchecoslováquia ocorreu no mesmo ano.

- É verdade. Dizia-lhe que logo depois o liberalismo e o comunismo tiveram uma causa comum. Se deram conta de que, assim não fosse, eram débeis frente ao nazismo. E no caso da América Latina o modelo de Franco influenciou mais que o de Benito Mussolini, com suas idéias conspiratórias da sinarquia, por exemplo. Não tome isso como uma desculpa para Mussolini, por favor. O fascismo europeu em geral é uma ideologia inaceitável, oposta a valores universais.

- Você fala da América Latina...

- Mas não me pergunte da Argentina. Não sei o suficiente de seu país. Todos me perguntam do peronismo. Para mim está claro que não pode ser tomado como um movimento de extrema direita. Foi um movimento popular que organizou os trabalhadores e isso talvez explique sua permanência no tempo. Nem os socialistas nem os comunistas puderam estabelecer uma base forte no movimento sindical. Sei das crises que a Argentina sofreu e sei algo de sua história, do peso da classe média, de sua sociedade avançada culturalmente dentro da América Latina, fenômeno que creio ainda se mantém. Sei da idade de ouro dos anos 20 e sei dos exemplos obscenos de desigualdade comuns a toda a América Latina.

- Você sempre se definiu com um homem de esquerda. Também segue tendo confiança nela?

- Sigo na esquerda, sem dúvida com mais interesse em Marx do que em Lênin. Porque sejamos sinceros, o socialismo soviético fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a lógica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplicação da lógica do liberalismo econômico. E também fracassou. A crise global que começou no ano passado é, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a análise marxista ainda é uma boa ferramenta para analisá-lo. Ao mesmo tempo, está claro que não só não é possível como não é desejável uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado.

- Por que não?

- Se se mira a história e o presente, não há dúvida alguma de que os problemas principais, sobretudo no meio de uma crise profunda, devem e podem ser solucionados pela ação política. O mercado não tem condições de fazê-lo.

Martin Granovsky é analista internacional e presidente da agência de notícias Télam.

Publicado no jornal Página 12, em 29 de março de 2009