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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

BRASIL PODE SER QUINTA ECONOMIA DO MUNDO NA PRÓXIMA DÉCADA, DIZ MANTEGA

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a crise representou uma oportunidade para o Brasil mostrar ao mundo suas "virtudes". Em entrevista à BBC Brasil, em Londres, Mantega afirmou ainda que os últimos dados mostram que a aceleração da economia brasileira é até mais forte do que se imaginava.


Com o discurso de que a crise já ficou para trás no Brasil, Mantega se arriscou a olhar para frente e a prever que, na próxima década, o Brasil já vai ser um país avançado, "a quinta ou a sexta economia do mundo" e com potencial de crescer de 5% a 6% "por muito tempo".

Mantega disse não acreditar em recaída da economia global e salientou que nada, nem as eleições, podem frear o que ele chamou de transformação do Brasil. "O destino do Brasil já está traçado, mesmo que haja mudança na administração, que não seja um candidato petista que ganhe a eleição. As principais diretrizes são conquistas do povo brasileiro. Se mudar, vai apanhar. Se alguém assumir e começar a mudar isso, não vai se aguentar no governo", disse Mantega.

BBC Brasil -Neste período de crise, alguns indicadores importantes no Brasil pioraram bastante, mas quando se compara a situação do Brasil à de outros países, como os países do G20, a situação não é tão ruim assim. O senhor acha que essa crise teve um aspecto positivo para o Brasil ao acelerar um processo de projeção internacional do país?

Mantega - Durante este ano de crise, o Brasil demonstrou que estava mais preparado do que muitos países para enfrentar uma crise. Nós demoramos mais tempo para ter resultados negativos de produto. O PIB brasileiro só foi negativo dois trimestres, enquanto outros países tiveram PIB negativo por três, quatro, cinco trimestres. E nós já estamos num processo de franca recuperação.

BBC Brasil -Então, a crise, de certa forma, foi positiva para o Brasil por ter revelado essa maior capacidade de recuperação?

Mantega - Eu acho que a crise foi muito importante para salientar essas vantagens que o Brasil possui em relação a outros países. Ficou demonstrado que o Brasil tinha uma situação fiscal sólida, que nós já controlávamos a inflação, que nossas contas públicas estão melhorando, que a dívida externa está diminuindo, que o Brasil tinha acumulado reservas, mas, além de tudo, que o Brasil tem uma capacidade produtiva grande, ou seja, que o Brasil é capaz de crescer. Isso é um grande divisor de águas. O Brasil tem um mercado interno, que outros países não têm, e este mercado interno está crescendo estimulado pelas políticas governamentais dos últimos 4, 5 anos.

BBC Brasil - Mas uma crítica que se faz é que o Brasil acabou demorando um pouco para agir, enquanto o presidente Lula ainda falava que a crise era uma marola. Medidas começaram a ser tomadas só a partir de novembro. O governo não deveria ter agido mais rápido?

Mantega - O Brasil foi um dos países que mais rapidamente pôs em prática as medidas contracíclicas. É por isso que estamos saindo mais rapidamente da crise, enquanto outros países demoraram mais para tomar medidas fiscais. Nosso programa de estímulo a automóveis começou em dezembro. Nos Estados Unidos, só começaram em junho deste ano, seis meses depois. Em março, abril, nossa indústria automobilística já tinha melhorado. Em seguida, fizemos medidas para o setor de linha branca, utilidades domésticas, material de construção. Uma diferença do Brasil para outros países é que fomos muito rápidos e ousados nas medidas que tomamos para atenuar a crise e já tínhamos nos antecipado com outras medidas.

BBC Brasil -Um aspecto que, de certa maneira, protegeu o Brasil foi o fato de que os bancos não estavam contaminados com ativos tóxicos, e o caso dos bancos brasileiros é interessante. Um tempo atrás, o sistema financeiro era criticados por rigidez, conservadorismo. Agora, falam da solidez do setor financeiro. A rigidez protegeu o Brasil?

Mantega - O sistema financeiro brasileiro é hoje um dos mais sólidos do mundo. O que se dizia era que ele era conservador. O que quer dizer isso? Que tinha uma alavancagem baixa, ou seja, ele empresta um volume menor em relação a seus ativos do que outros países que alavancavam muito. Nos Estados Unidos, chegaram a alavancar mais de 30 vezes o capital. A alavancagem média no Brasil é de 6,5 vezes o capital, ou seja, abaixo do nível de Basileia.

O que foi conservadorismo numa época foi favorável num momento de crise. Conservadorismo é um excesso de prudência. Mas não foi só isso. A regulação do Brasil é mais avançada do que em vários países. E, terceiro, a existência de bancos estatais. Num momento de crise, são totalmente seguros. Ninguém duvida dos bancos estatais. Não sofrem saques, sofrem depósitos e podem ir para a ofensiva como aconteceu com os bancos públicos brasileiros. Nos últimos 9 meses, 10 meses, eles aumentaram o volume de crédito quase 30% em relação a setembro. Os privados aumentaram um pouquinho, estão começando a se soltar agora.

Mas o fato de termos bancos públicos, junto com sistema privado sólido, ajudou a economia brasileira a se diferenciar. Sistema financeiro sólido, mercado interno robusto, atuação do Estado estimulando a economia, fundamentos sólidos, contas públicas bem equilibradas. O Brasil terá um resultado, neste ano, melhor do que o G20. Mesmo com a crise essa trajetória vai continuar. A maioria dos países vai sair da crise machucada, com uma dívida maior, déficit elevado. Os Estados Unidos vão ter um déficit de 10%, já o Brasil vai ter pouco mais que 2%. Teremos um déficit menor do que a China, a Índia. É por isso que o Brasil está se salientando, por todas essas virtudes que está demonstrando.

BBC Brasil -Mas houve uma piora nas contas. E para voltar a alcançar as metas, o Brasil vai ter que crescer 4,5% no ano que vem, vai ter que atingir níveis recordes de arrecadação. Não é raro encontrar análises mais cautelosas sobre a recuperação da economia global. Será que o governo brasileiro não está sendo otimista demais?

Mantega - As contas públicas em 2009 pioraram no mundo inteiro. Só que no Brasil pioraram menos do que pioraram no mundo. Mesmo em relação à Índia, à China, que são países considerados os mais promissores, as contas brasileiras estão melhores. Não estou nem comparando com os Estados Unidos, com a Grã-Bretanha porque estão infinitamente piores.

BBC Brasil -Mas em relação às próprias metas do Brasil?

Mantega - Em 2009, tivemos que reduzir a meta do primário em 1%. Foi só neste ano que reduzimos um pouco, enquanto outros países estão aumentando violentamente (o déficit). A China fez um programa contracíclico com 13% do PIB. Brasil vai gastar menos de 1% do PIB. Fizemos uma ação de qualidade, gastando pouco com resultado muito satisfatório que nem a China obteve. Está gastando 13% do PIB para manter um crescimento de 8%.

Para o próximo ano, não há nenhum analista que não diga que o Brasil não vai crescer. E os analistas estão até me superando. Dizem que eu sou otimista. Não sou otimista, sou realista. De agosto a setembro, o Brasil já está crescendo a um ritmo de 4,5%, 5%. Teremos o resultado do segundo trimestre de 2009 (o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) será divulgado nesta sexta-feira, 11 de setembro). Você vai ver que já estamos crescendo de 6% a 8%, anualizado. Então, eu tenho certeza de que, com um crescimento de 4,5%, a arrecadação federal vai voltar a crescer como vinha crescendo no passado.

BBC Brasil -Mas o governo considera a hipótese de que possa haver uma recaída na economia global? Até mesmo por conta desses gastos excessivos em outros países, o senhor não admite a hipótese de uma recaída e o impacto que isso possa vir a ter no crescimento do Brasil e no cumprimento das metas fiscais?

Mantega - O crescimento do Brasil hoje está baseado no mercado interno principalmente e não no mercado externo. O Brasil tem uma economia pouco aberta, as nossas exportações representam apenas 13% do PIB. Para você ter uma ideia, as da China representam 40% do PIB dela, as da Alemanha representam 40%. Então, nós dependemos menos do mercado externo e mais do interno. Eu não acredito que haja uma recaída. Acho que o Roubini (Nouriel Roubini, economista que ganhou projeção por prever a atual crise) está dizendo isso, a chamada curva em W. Eu não acredito no W. Eu acredito que a economia mundial terá um lenta recuperação. Será demorada, poderá demorar 2 ou 3 anos, mas a economia mundial já está rodando no positivo. Mesmo as mais afetadas estão saindo de taxas negativas. Há sinais em todas as partes do mundo de que já está havendo uma recuperação, lenta difícil e gradual.

BBC Brasil -Então, o senhor acredita que o mercado consumidor interno blindaria o Brasil de uma recaída?

Mantega - Essa é a diferença do Brasil, China, Índia. Se fizessem uma reconversão. A China está fazendo isso. A Índia tem um mercado interno fabuloso. O Brasil também tem um mercado interno bastante razoável. Temos uma classe média de quase 100 milhões de habitantes. Os dados de varejo mostram que o consumo continuou crescendo no país, o consumo de automóveis, eletroeletrônicos, compra de casas. O mercado habitacional está em plena expansão e ainda não está sentindo o efeito do programa habitacional que vai começar a fazer efeito no último trimestre do ano.

Os últimos dados são de que a aceleração é até mais forte do que a gente imaginava na economia brasileira, a ponto do BC não ter baixado a taxa de juros. Não baixou é porque está percebendo a recuperação do país. E alguns economistas mais conservadores já estão preocupados com o crescimento. Eu não estou preocupado. Não sei por que estão preocupados. A inflação está baixa, sob controle. O Brasil tem capacidade ociosa para poder crescer, fez muitos investimentos e dá para ter crescimento folgado sem inflação e mantendo todos os equilíbrios macroeconômicos.

BBC Brasil -Essa crise ressuscitou o papel do Estado nas economias, pelo menos em tempos de crise, e, para alguns, representa uma vitória do estado sobre o liberalismo. Como o senhor acha que isso influencia e vai influenciar, na prática, o papel do Estado no Brasil?

Mantega - Nos últimos 30 anos, houve uma exacerbação do livre cambismo, ou seja, todo mundo achava que o livre mercado poderia resolver os problemas econômicos. Liberou o mercado financeiro, o Estado foi se retirando e nós vimos no que deu. O setor financeiro, se não for regulamentado, vai fazer as besteiras que fez. No Brasil, o Estado tem o papel de estimular o crescimento, mas isso não significa a volta do estatismo, isso não tem nada a ver com o que deve acontecer no início da industrialização. Hoje, o Brasil é um país industrializado, então, o Estado tem de ter uma função de indutor de alguns setores. Não é o velho estatismo, mas é uma maior participação do estado do que os liberais pregam.

BBC Brasil -Alguns observadores estrangeiros viram o recente anúncio do novo marco regulatório do pré-sal com ceticismo. O New York Times publicou uma reportagem em que classifica o novo marco de "virada nacionalista". A revista Economist também viu com certa desconfiança a medida e disse que as empresas estrangeiras ficarão subservientes à estatal. Como o senhor vê esse tipo de avaliação? Está havendo uma virada nacionalista no Brasil?

Mantega - Acho que essa visão é equivocada. Se tem um país que foi avançando, abrindo mercado… Hoje, as empresas brasileiras que exportam podem deixar capitais fora do país. Há plena liberdade de entrada e saída de capitais estrangeiros. O capital estrangeiro no Brasil tem o mesmo status que o capital nacional, não há restrição. As normas do Brasil são claras e são cumpridas. Agora, no campo do petróleo, que é um campo estratégico, a coisa é diferente.

Por quê? Encontramos reservas que são da União. Está escrito, não mudamos a Constituição. São reservas comprovadas, existem, não há risco, e queremos que a Petrobras extraia essas reservas em prol do governo e da população brasileira como fizeram outros países. Por exemplo a Noruega. Não é um país estatista ou coisa que o valha. É um país sério, desenvolvido, avançado. No entanto, quando a Noruega descobriu reservas importantes de petróleo, criou uma empresa estatal que extrai petróleo em vantagem do governo.

Não vamos misturar as coisas. O Brasil não é um país que muda, que caminhou para um nacionalismo xenófobo. Defender os interesses nacionais, todos os países defendem. Nunca vi mais bandeiras nacionais do que nos Estados Unidos. Então, vamos dizer que nacionalismo é praticado por todos os países. Mas damos tanta liberdade quando os EUA dão para o capital estrangeiro. Portanto, não podemos ser considerados um país que faz qualquer discriminação contra o capital estrangeiro e continuaremos nessa trajetória.

BBC Brasil -O senhor disse recentemente que o Brasil está prestes a entrar num novo ciclo de crescimento. Se a gente olha para trás, tivemos o período do milagre, tivemos duas décadas perdidas, tivemos o período de estabilização, retomada do crescimento e, então, veio essa crise. O senhor se arriscaria a prever como será essa década que começa em dois anos?

Mantega - O Brasil é um país que vem se aprimorando ao longo do tempo. Tivemos vários ciclos econômicos. O ciclo que tivemos de 2003 a 2008 foi um dos melhores. Por quê? Crescemos sem criar desequilíbrio, inflação, déficit público. Encurtamos o período de crise e já estamos preparados para, a partir de 2010, começar um novo ciclo de expansão, graças a essa solidez, que vai continuar com taxas de 5%, 6% nos próximos cinco, seis, sete anos tranquilamente. O Brasil vai seguir aquela trajetória que o Jim O'Neill previu dos Brics.

Nos próximos 20, 30 anos, o Brasil, certamente, será um dos países mais importantes do mundo, uma das economias com maior PIB do mundo. Por quê? Nós podemos crescer 5, 6% durante muito tempo. O pré-sal só vem confirmar essa tendência. Já temos reservas, agricultura produtiva, indústria bem implantada, serviços se expandindo, mercado de capitais sofisticado, então, o Brasil tem condições de ser um dos líderes nos próximos anos. Já é reconhecido como tal, como potência emergente.

BBC Brasil -Será, então, que essa consolidação como potência vai marcar os próximos anos?

Mantega - Será uma década de consolidação do crescimento. Já é uma das 10 maiores economias, será uma das cinco ou seis. Será uma das que mais vão crescer. Mas ainda temos vários problemas. A educação é ainda muito desigual, temos que aumentar o nível de educação, melhorar as condições de vida em várias regiões do país. Há muita coisa por fazer. A pobreza diminuiu muito nos últimos seis anos. Nos próximos seis, sete anos, vai diminuir ainda mais. Eu diria que, daqui a uma década, Brasil já vai parecer um país avançado.

BBC Brasil -O senhor não acha que os países que formam o Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) deveriam ser mais agressivos para consolidar o G20 como principal fórum de decisões global?

Mantega - Não precisa ser muito agressivo porque esse fortalecimento do G20 está vindo espontaneamente. Já tivemos três reuniões neste ano, entre ministros da Fazenda e líderes. Vamos ter em Pittsburgh uma nova reunião. Tem novembro na Escócia, nunca vi tanta reunião do G20. Portanto, hoje, o G20 já é o fórum mais importante da economia mundial porque representa melhor os países mais importantes do globo. Nós sabemos que, mesmo antes dessa crise, os Brics e emergentes já estavam à frente do crescimento. Ou seja, o crescimento mundial estava sendo puxado pelos emergentes. Depois dessa crise, isso será ainda mais verdadeiro. Serão os emergentes que vão determinar o ritmo de crescimento da mundial. . É inevitável que teremos peso maior. E o G20 é o órgão mais adequado para coordenar ações internacionais.

BBC Brasil -Mas entre ser o mais adequado e, de fato, se consolidar, existe um visão mais resistente. O senhor vê um risco de que a recuperação da economia, sem mudanças concretas, faça com que os países ricos voltem a olhar para seus próprios umbigos e a retomada tire o impulso de reformas no FMI e da consolidação do G20?

Mantega - A retomada vai se dar em ritmos diferentes e vai demonstrar que os países avançados são os mais debilitados e, portanto, eles precisam dos emergentes puxando o crescimento. Quem vai puxar o crescimento somos nós. Pode haver um ou outro país europeu que fique melindrado, aborrecido… mas os países da Ásia querem o G20, os Estados Unidos, desde o primeiro momento, encampou o G20, Obama já disse que é a mais importante das instituições. Se tem um ou outro país europeu que possa ficar preocupado, isso não vai impedir que o G20 se consolide como a instituição mais importante da economia mundial.

BBC Brasil -Para encerrar, que marca o senhor acha que o governo do qual o senhor faz parte vai deixar. Vai ser um governo que se beneficiou de uma situação externa extremamente favorável? Vai ser um governo que mudou o papel do estado na economia? Que marca ficará?

Mantega - O Brasil mudou muito. Em cinco anos, o Brasil mudou mais do que em 30, 40 anos. Foi uma mudança acelerada do país com melhorias em todas as frentes. Será um governo inesquecível. Tirou o Brasil da condição de patinho feio. A crise da Argentina quase derrubou o Brasil em 2001. Não tínhamos reservas, tínhamos que ir de pires na mão pedir dinheiro. Então, o Brasil saiu de coadjuvante para protagonista, um país dinâmico, respeitável. Alguns diziam que era sorte, que estava tendo expansão da economia internacional. É verdade, soubemos aproveitar a economia internacional. Tivemos a sorte de ter um presidente capaz de aproveitar períodos de prosperidade e que sabe atuar em período de adversidade. E é na adversidade que você vê a capacidade. Hoje, não dá mais para falar que é sorte, foi por acaso, é obra do espírito santo. A crise demonstrou isso. Fora da crise, pode-se dizer que é sorte, mas, durante a crise, não pode dizer que é sorte.

O Brasil vai ser outro país muito rapidamente, vai acabar com a pobreza, com o analfabetismo, já há multinacionais brasileiras atuando no exterior, será um dos principais mercados de atração de investimentos. Com isso, a transformação do Brasil já está assegurada.

BBC Brasil - E o que pode frear esse processo?

Mantega - Se uma crise dessa magnitude não freou esse processo, eu acho difícil que tenha alguma coisa que possa frear. Mesmo com as eleições, o curso das políticas já está dado. Acho temerário que algum novo governante venha a mudar uma série de diretrizes que estão dando certo. Eu duvido que desative o Bolsa Família, os programas sociais. A população não vai deixar. Duvido que diminua investimentos públicos, que bancos públicos diminuam a atuação, que a Petrobras deixe de ser a principal agente do pré-sal. O destino do Brasil já está traçado, mesmo que haja mudança na administração, que não seja um candidato petista que ganhe a eleição, mas de outro partido. As principais diretrizes são conquistas do povo brasileiro. Se mudar, vai apanhar. Se alguém assumir e começar a mudar isso, não vai se aguentar no governo.


Fonte: BBC Brasil

OS RISCOS E ILUSÕES DA EXPLORAÇÃO DO PRÉ-SAL

Entrevista Especial com Fernando Ferrari Filho/IUH Online

De “passaporte para o futuro”, como é denominado pelo governo, o pré-sal além de atrair muitos investimentos para o país, pode trazer à tona o fantasma da estagnação econômica. “Se não houver um controle de recursos externos que entrarão, o câmbio seguirá uma tendência de sobrevalorização, o que pode resultar em um problema de ‘doença holandesa’”, alerta o economista Fernando Ferrari Filho, em entrevista concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Em outras palavras, enfatiza, “há uma perspectiva de desindustrialização da economia brasileira”. Ao assinalar as implicações do pré-sal, ele também observa perspectivas positivas. “As reservas do pré-sal e as perspectivas de exploração delas colocarão o Brasil em uma situação privilegiada no cenário internacional, principalmente no que diz respeito à captação de recursos externos”.

Na entrevista que segue, o economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, acentua que a sobrevalorização do real está relacionada a alguns fatores, em especial, a diferença entre as taxas de juros doméstica e externa, que sofrem influências estruturais e conjunturais. Ele explica: “Estrutural, porque está relacionada à condução das políticas monetária e cambial por parte do Banco Central; conjuntural, porque, em um contexto de instabilidade internacional, os agentes acabam buscando mercados relativamente tranquilos”. Embora a economia nacional opte por um regime flutuante de meta cambial, o economista lembra que ela “possui reservas cambiais robustas, o que reduz ou elimina, pelo menos no curto prazo, a vulnerabilidade externa do país”.

Fernando Ferrari Filho é graduado em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, doutor em Economia pela Universidade de São Paulo - USP, e pós-doutor pela University of Tennessee System. Publicou, entre outros, Política comercial, taxa de câmbio e moeda internacional: uma análise a partir de Keynes (Porto Alegre: UFRGS, 2006). Escreveu para a edição número 37 dos Cadernos IHU Ideias, intitulado As concepções teórico-analíticas e as proposições de política econômica de Keynes.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em sua opinião, quais são as causas da sobreapreciação cambial? Ela é estrutural e conjuntural?

Fernando Ferrari Filho - A sobrevalorização do real, ao longo de 2009, deve-se a inúmeros fatores, tais como a economia brasileira, apesar do fato dos analistas econômicos e as instituições nacionais e multilaterais estarem prevendo um crescimento negativo ou próximo de zero para o corrente ano, apresenta situações fiscal e, principalmente, externa sólidas; o sistema financeiro não opera com derivativos exóticos, é eficiente, está adequado às regras de Basiléia II etc.; e as taxas de juros domésticas, a despeito da Selic que as baliza, terem caído 5,0% entre janeiro e setembro, são atrativas. Em suma, os referidos fatores, em especial o último - diferencial entre as taxas de juros domésticas e externas -, contribuem para o ingresso de capitais, aumentando, assim, a oferta de divisas cambiais. A sobrevalorização é tanto estrutural quanto conjuntural: estrutural, porque está relacionada à condução das políticas monetária e cambial por parte do Banco Central; conjuntural, porque, em um contexto de instabilidade internacional, os agentes acabam buscando mercados relativamente tranquilos.

IHU On-Line - A sobreapreciação cambial demonstra que a economia brasileira, de algum modo, está vulnerável?

Fernando Ferrari Filho - A economia brasileira possui reservas cambiais robustas, o que reduz ou elimina, pelo menos no curto prazo, a vulnerabilidade externa do País. Todavia, cabe ressaltar que se os déficits em transações correntes perdurarem e/ou recrudescerem e se os influxos de capitais cessarem, poderemos ter, em um futuro (mais distante do que próximo), problemas de fechamento de balanço de pagamentos, fragilidade externa etc.

IHU On-Line - O senhor disse, numa entrevista que nos concedeu em novembro, que os efeitos sobre os níveis de emprego, massa salarial e inflação seriam observados em 2009 e 2010. Já consegue ver uma perspectiva nesse sentido? A sobreapreciação cambial contribui na observação mais clara desses efeitos?

Fernando Ferrari Filho - A inflação há muito tempo deixou de ser um problema para o país. Ademais, em um contexto de recessão, a inflação deverá ficar abaixo do alvo da meta, 4,5%. Por outro lado, o efeito transmissor do câmbio sobrevalorizado sobre os preços é observado, por exemplo, nos índices de inflação em que os preços de atacado têm um peso significativo. Nesse particular, tanto o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) quanto o IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), acumulados em 12 meses, têm apresentado, mês após mês, deflação. Inflação menor, por sua vez, acaba elevando o salário real. Todavia, para ocorrer um crescimento da massa salarial, é necessário, também, que o nível de emprego se expanda. Nesse particular, infelizmente, a taxa média de desemprego em 2009 é superior a de 2008.

IHU On-Line - Essa valorização artificial do real pode desaquecer a economia brasileira? Quais são, nesse sentido, os principais entraves para o crescimento econômico nacional?

Fernando Ferrari Filho - A sobrevalorização cambial desaquece o setor exportador, principalmente aquele que depende do "subsídio" cambial. Ademais, ela é prejudicial ao setor de máquinas e equipamentos domésticos, visto que as importações do referido setor afetam a indústria nacional.

IHU On-Line - Quais são as limitações e as possibilidades para a economia brasileira ao optar por um regime flutuante de meta cambial? Como isso interfere no crescimento econômico?

Fernando Ferrari Filho - Os governos optaram, desde 1999, pelo tripé metas de inflação, câmbio flexível e metas fiscais. Foi uma opção! Eu, particularmente, entendo que o regime macroeconômico adequado para estabilizar a inflação e assegurar o crescimento econômico sustentável é política monetária contra-cíclica (isto é, taxa de juros para expandir a atividade econômica), câmbio administrado e equilíbrio fiscal, sem abandonar a perspectiva de se adotar política fiscal contra-cíclica em momentos de desaquecimento do PIB.

IHU On-Line - Alguns especialistas dizem que o pré-sal vai colocar o Brasil em um processo de inserção internacional. Qual é o significado do pré-sal para a economia? Em que medida o pré-sal é positivo ou negativo?

Fernando Ferrari Filho - Não há dúvida de que as reservas do pré-sal e as perspectivas de exploração delas colocarão o Brasil em uma situação privilegiada no cenário internacional, principalmente no que diz respeito à captação de recursos externos. Ingresso de recursos externos implica investimentos que, por sua vez, expandem a atividade econômica. Essa sequência, sem dúvida, é o aspecto positivo. O aspecto negativo é que, se não houver um controle dos recursos externos que entrarão, o câmbio seguirá uma tendência de sobrevalorização, o que pode resultar em um problema de "doença holandesa". Em outras palavras, há uma perspectiva de desindustrialização da economia brasileira.

IHU On-Line – Mas, com o pré-sal, o senhor vislumbra, a longo prazo, uma economia crescente, dinâmica e competitiva em vários setores? Ou, pelo contrário, a economia interna corre o risco de estagnação se o petróleo for exportado?

Fernando Ferrari Filho - Como sou um keynesiano, não me cabe outra coisa a dizer que o "futuro é incerto". Nesse sentido, conjecturar sobre dinâmica da economia brasileira, a partir da exploração do pré-sal que ocorrerá a médio prazo, é complexo. Eu diria, todavia, que o crescimento sustentável, com ou sem pré-sal, passa pela eliminação das restrições externas e pela reestruturação do mercado interno, com inclusão social consistente.

IHU On-Line - Quando descoberta, a Serra dos Carajás, no Pará, era anunciada como uma alternativa para combater os problemas sociais e econômicos do país. Com pré-sal, o discurso e a prática irão se repetir?
Fernando Ferrari Filho - O pré-sal não eliminará os problemas sociais do país. A redução ou eliminação deles passa pelo crescimento acelerado e sustentável, com inclusão social, e pela distribuição de renda.

IHU On-Line - A lógica do livre mercado desencadeou a crise financeira internacional e deixou as economias em pânico. As economias não aprenderam nada com isso, considerando que os capitais já estão retomando velhas práticas de acumulação financeira, como acontece no caso do Brasil com a valorização cambial?

Fernando Ferrari Filho - A crise financeira internacional não está sendo mais recrudescedora em termos de impactos recessivos porque foram implementadas políticas fiscal e monetária keynesianas. Não há a mínima dúvida! Todos, economistas e policymakers, tornaram-se "keynesianos". Os oportunistas, todavia, não veem a hora da "poeira baixar" para que o Estado volte a exercer um papel de passividade na atividade econômica, sancionando a lógica dos mercados.

Enquanto não houver uma reestruturação da ordem econômica internacional, e os governantes e as autoridades econômicas não entenderem que Estado e Mercado são duas instituições imprescindíveis e que interagem, as crises do capitalismo continuarão, em um mundo globalizado, causando seus estragos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

CONTRAPONTO: A ZONA LESTE DE MANAUS E AS BIO-OPORTUNIDADES

“Palco de disputa de atenções políticas, a Zona Leste de Manaus (área de enfrentamento, onde o capital privado pretende construir o Porto das Lajes e o poder público promete fazer também adutora de água mais o Mirante das Águas) está precisando da mobilização compartilhada de todos os entes republicanos e demais atores sociais. Seja lá que nome se dê à iniciativa, o fato é que não faz sentido fragmentar intervenções. A região representa, hoje, meia Manaus, e carece de inteira e irrestrita intervenção”.

*Belmiro Vianez Filho

Parodiando a campanha do Petróleo é nosso, que mobilizou há mais de meio século a sociedade brasileira na afirmação da propriedade e gestão nacional desse bem natural, o professor Odenildo Sena, que preside a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado, alertou sobre a necessidade de uma atenção maior aos negócios da biodiversidade, em sua coluna semanal neste Diário. O cosmético é nosso! Com destaque para os avanços que essa luta começa a conquistar, ele desfere uma oportuna e discreta cutucada em cima da demora incompreensível do Brasil em investir recursos e atenções para as bio-oportunidades que a biodiversidade amazônica representa. Na contramão dos preservacionistas, já havia denunciado na reunião da SBPC, em julho último - estranhamente a primeira celebrada em Manaus - o coração da floresta, que o Amazonas pouco aproveita de sua quase intocada cobertura vegetal.

Sobrevivemos com a produção de eletrônicos, informática e motocicletas, e nosso agronegócio ou bio-negócio no país, está montado em espécies estranhas ao nosso bio-almoxarifado. Soja, café, cana-de-açúcar, laranja, gado zebu são espécies estranhas ao nosso banco genético, embora 10% dos medicamentos no mercado utilizem princípios ativos de nossa biodiversidade. Com um detalhe: não deixam um centavo de royalties no país, alegando que a bioprospeccão – o nome pomposo da biopirataria - lhes confere a propriedade natural. Um dilema que o país não consegue resolver em suas negociações multilaterais.

A Natura, que já atua em Benevides, no Pará, há quase uma década, tem esbarrado na burocracia para entrar com seu projeto no CAS, da Suframa. A empresa, que precisa ajustar um entendimento com as etnias amazônicas da fronteira com o Peru, sobre a utilização do murmuru, para a produção de cosméticos, já confirmou sua adesão ao novo pólo. E com ela, Pronatus, Amazon Ervas e Vita Derme, entre outras, já ensaiam a consolidação promissora da biondústria. É significativo que a RedeBio, que compartilha projetos e recursos nos principais estados amazônicos, disponha de apenas R$ 7 milhões para pesquisa e inovação tecnológica... O que não deixa de ser, além do brado, uma esperança.

Zoom-zoom

Zona Leste – Palco de disputa de atenções políticas, a Zona Leste de Manaus está precisando da mobilização compartilhada de todos os entes republicanos e demais atores sociais. Seja lá que nome se dê à iniciativa, o fato é que não faz sentido fragmentar intervenções. A região representa, hoje, meia Manaus, e carece de inteira e irrestrita intervenção.

Verbas da Suframa – Diversas manifestações sobre a última Mira fazem cobrança para a bancada federal do Amazonas exigir do Governo Federal a liberação dos recursos contingenciados da autarquia. E mencionam, com exemplos e desencanto, um certo despreparo de alguns parlamentares para entrar e influir nesse jogo de interesses que a capital federal representa.

Chapéu do Panamá – O que mais incomoda o contribuinte e o cidadão dos municípios que integram a Amazônia Ocidental, é saber que o país tem recursos para financiar infra-estrutura no Panamá, Equador, Bolívia e Venezuela, e precisa contingenciar verbas da Suframa, que financiariam saídas para nossa gente.

Gilberto, um mês – Nesta quarta-feira, completou um mês do falecimento de Gilberto Mestrinho. Na Assembléia, uma homenagem discreta e emocionada celebrou a memória de sua sabedoria e bondade. Ele ficará entre nós sempre que a defesa do Amazonas e de sua gente estiver em risco e em pauta...Descanse em paz, meu amigo!

*Empresário, membro da Associação Comercial do Amazonas e articulista do jornal Diário do Amazonas. belmirofilho@belmiros.com.br

terça-feira, 14 de julho de 2009

UMA BREVE ANÁLISE SOBRE RIQUEZA E PODER




Lena Andréa Muniz*

Para fundamentar os estudos recorre-se a uma breve análise dos capítulos do livro de Leo Huberman – História da Riqueza do Homem e Sacerdotes, Guerreiros e Trabalhadores, Ouro, Riqueza e Glória do qual se utilizou para retratar as várias manifestações do poder, tais quais: o poder do Estado, do Rei, da Igreja e das demais classes dominadoras, onde manda quem pode e obedece quem quer ir para o céu.

No entanto, para se dar continuidade se faz necessário conceituar a palavra poder. De acordo com Corssetti.

“a palavra poder designa a capacidade ou possibilidade de agir, produzir efeitos. Esta designação pode ser referida tanto a uma dimensão social envolvendo indivíduos ou grupos humanos como a fenômenos de ordem física natural”.

Sacerdotes, guerreiros e trabalhadores.

Ao logo desse primeiro capítulo do livro supracitado, o autor faz uma exposição de como se davam as relações entre as classes servis, nobre e clero, tomando como pano de fundo o sistema econômico denominado feudalismo.

De acordo com HUBERMAN (1997) as terras agrícolas em grande parte da Europa Ocidental e Central, dividiam-se em feudos.

Como característica principal do feudalismo, ressalta-se que as terras eram dividas em duas partes, uma pertencente ao senhor do feudo e a outra parte era dividida entre os arrendatários (mansos).

As condições em que viviam os camponeses eram de extrema miséria, trabalhando arduamente nas faixas de terras espalhadas. Existiam vários graus de servidão: os servos de domínio viviam permanentemente ligados à casa do senhor; os fronteiriços camponeses paupérrimos mantinham pequenos arrendamentos de um hectare; os aldeões que possuíam só uma cabana e deviam para o senhor em troca de comida, não possuíam arrendamento.

A riqueza era determinada por um único fator – a terra, ou seja, quanto mais se possuía terra mais poder se possuíam, mais servos se tinha.

Uma das maiores proprietárias de terras do período feudal foi à igreja. A maior, mais poderosa e mais duradoura que qualquer outra coroa. Algum nobre em suas conquistas se apoderava das terras de seus inimigos e doavam parte à igreja que detinha esse poder sobre os nobres, às vezes o poder do clero superava o poder da coroa visto que a igreja era a possuidora das chaves do céu, que de certa forma vendia àqueles que podiam pagar, em dinheiro, pelo purgamento de seus pecados, inclusive poderiam pagar de forma antecipada por algum tipo de pecado que haveriam de cometer.

Tanto o senhor quanto o servo contribuíam para o enriquecimento da igreja, aumentando assim o controle e o patrimônio da igreja, tornando-a a maior senhora feudal, ou seja, o clero e a nobreza nesse período constituíam as classes dominantes.

Portanto, observa-se que os servos não tinham direitos e eram dominados tanto pelo senhor quanto pela igreja. Os camponeses trabalham dias a fio para o senhor e em nas suas terras, plantavam, colhiam, e viviam em função do senhor da terra, e sempre continuavam devendo a ele.

A igreja por sua vez incentiva de certa forma esse tipo de escravidão, pois prestava ajuda espiritual tanto para o senhor quanto para o servo. Uma das formas de manter o poder do senhor sobre o servo era levando o servo a pensar que a sua situação de escravo era uma dádiva do céu, ou seja, usava-se uma passagem bíblica que diz: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de agulha que um rico entrar no reino do céu, e assim o servo não se rebelava contra o senhor, pois de acordo com seu entendimento a sua condição de pobreza era a vontade de Deus.

Outra forma de a igreja manter seu poderio era impedindo que se fizessem empréstimos a juros, ou seja, a igreja proibia a usura, alegando que a usura era pecado, e que quem enriquecesse através dessa pratica seria excomungado e não herdaria o reino dos céus. Porém, a própria igreja emprestava, para os comerciantes, arrendatários, para o senhor, inclusive, valores a juros, ou seja, ela usava daquela máxima que diz; faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. A proibição era uma forma de diminuir a concorrência e ela continuar mantendo o controle de ambos os lados.

Por fim, não havia um governo forte na idade Média capaz de se encarregar de tudo. A organização, no todo, baseava-se num sistema de deveres e obrigações do principio ao fim. A posse da terra não significa que se pudesse fazer dela o que agradasse.

O que se pode acrescentar sobre a narrativa acima é o que cita Eduardo Corssetti, em seu texto, Poder e Poder Político:

“... de que o poder é constituído por uma situação processual em que um dos atores impõe um comportamento ou atitudes, que contrariam interesse, para, em virtude disso, realizar os seus próprios, buscando assim, determinados benefícios.”

Ou seja, utilizando a máxima de Maquiavel, em sua obra “O Príncipe” que afirma que “os fins justificam os meios”, ou seja, para que tanto os senhores quanto a igreja detivessem o poder não importava a situação em se encontrava o servo, ou que deturpação haveria de se fazer sobre o que rege a bíblia, pois a interpretação desta varia de acordo com o interesse de quem dela se utiliza.

De acordo com Corsseti, o efeito sobre o subordinado é o de torná-lo disciplinado por adesão, através do convencimento de que tal situação deve ser determinada modo e não de outro. A ideologia do dominante frente ao subordinado funciona na pratica em dois planos simultâneos : A racionalização do dominante e a motivação do dominado.

A racionalização do dominante e a motivação do dominado é contemplado na questão do clero quando mantêm o poder sobre o senhor que diante de suas conquistas divide com esta dando-lhes boa parte de sua riqueza como forma de alcançar seus objetivos, incluindo alcançar o reino dos céus.

O dominado na figura do servo, ao aceitar sua condição de escravo mantendo sua servidão sem revolta contra seu escravizador, mesmo sendo o senhor nessa relação o maior dependente, na questão da sobrevivência diária, pois sem o servo o senhor teria que fazer tudo àquilo que eles faziam para manter a reserva senhorial funcionando, sendo eles responsáveis pela manutenção do senhor, quando produzem tudo que o senhor precisar desde alimentos até vestuários, e por muitas vezes sentindo-se gratos àqueles (opressores) por se acharem dadivosos quando se sentem esperançosos de ter descanso eterno, acreditando na vida aos a morte, situação essa mantida através dos dogmas da igreja.

“Ouro, riqueza e glória”

Leo Huberman, analisa e discute no capítulo XI e XII – Ouro, Grandeza e Glória, onde a preocupação girava em torna das riquezas de um país. Os governos ambicionavam riqueza e poder, assim interferiam na vida de seus tributários (súditos), moldando e regulamentando em prol desses objetivos, essa interferência na vida da sociedade, encaixou-se nos moldes do sistema mercantil.

O princípio de todo o sistema mercantilista se dava pela exploração das colônias em busca de metais preciosos, a sua posse, ou seja, o total de metais preciosos que um país possuía era o índice de riqueza e poder.

Assim, muitos paises proibiram a exportação de metais para que fosse preservado em seus paises e fossem vistos como paises ricos e poderosos.

Eduardo Corsseti, em seu livro Poder e Poder Político cita que:

“O alcance dos processos de poder dependem da recorrência aos recursos que sustentam a relação e que se constituem nos meios pelos quais se realiza tanto a possibilidade da assimetria como a das sanções”.

(...)

“O subordinado age de acordo com que presumidamente desejaria o dominante , com receios das punições”.

(...)

As relações de mando e obediência que emergem da política , estão baseadas , além das coisas materiais, em hábitos, sobretudo na obediência...,”

Os mercantilistas afirmavam positivamente sobre o fomento da indústria, pois o seu crescimento não representava somente um aumento nas exportações e no favorecimento da balança comercial, porém aumentava, também, o índice de emprego. Este pensamento surgia em uma época em que existia um grande número de mendigos e desempregados, o que corroborava a tese de que consolidar o poder e as riquezas nacionais era uma necessidade, pois consequentemente manteria a boa forma dos súditos.

Os comerciantes almejavam grande parte dos lucros das companhias monopolizadoras privilegiadas, quando tentaram participar, foram excluídos, por esses motivos ansiavam pelo comércio livre. Os governos por sua vez queriam incentivar a indústria, porém, não poderiam fazer, pois ao ajudar uma classe automaticamente prejudica a outra, e como não poderia ser diferente a classe prejudicada protestavam.

Os constantes protestos devidos às políticas protecionistas. Os mercados estavam insatisfeitos com as restrições mercantilistas, queriam modificações que melhorassem seus negócios, então, defendiam a política que melhor traria riqueza e prosperidade ao país.

O que se pode observar é que em suma todos ambicionavam pelo poder, e a partir do momento que se sentissem acuados ou prejudicados em algum tipo de medida protestavam, o que deixa bem claro que o que Corssetti ressalta em Poder e o Poder Político que:

... deve-se saber que a força constitui um dos dados do poder, mesmo que possa vir a se constituir num dos mais canhestros de serem alcançados aos objetivos.

Economista e professora da UFAM


Referência:

CORSSETTI, Eduardo. Poder e Poder Político In., Marcelino, Nelson (ORG.) Introdução às Ciências Sociais. São Paulo (Campinas): papirus, 1987.

HUBERMAN, Leo. A Historia da Riqueza do Homem. 21 ed. LTC. Rio de Janeiro, 2009.

MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução Maria Lucia Cumo. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1996 –

sexta-feira, 5 de junho de 2009

FAE 001: FÓRUM AMAZONAS DE ECONOMIA



FAE 2009

CRISE ECONOMICA MUNDIAL:
“Impactos e Perspectivas na economia regional”

Local de realização:
Auditório Raimundo Aguiar (FIEAM) – Avenida Joaquim Nabuco, Centro.

Data: 18 e 19 de Junho das 19 às 23h

Porte: Municipal

Número Previsto de Participantes: 300

INSCRIÇÕES AMANHA: 15 REAIS A VISTA ATÉ O DIA 03/06/2009


NO DIA 14 A DEZESSSETE: 20 REAIS

NO DIA DO EVENTO:30 REAIS

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES DE ECONOMIA
REG. NORTE

Centro Acadêmico de Ciências Econômicas – UFAM
Gestão Pleno Emprego 2009/ 2010
PROGRAMAÇÃO

18 de Junho – 19 às 23h

Mesa 1: Analise da economia regional diante a crise:

visão institucional:

Componentes da mesa:

•CORECON AM/ RR – Conselho regional de Economia
•FIEAM – Federação das Indústrias do Estado do Amazonas
•SEPLAN - Secretária de Planejamento
•ACA – Associação dos Comerciantes do Amazonas
•SUFRAMA – Superintendência da Zona Franca de Manaus
•ASCOM – Associação dos Consultores de Manaus
•AFEAM – Agencia de Fomento do Amazonas

19 de Junho – 19 às 23h

Mesa 2: Perspectivas e impactos da crise na economia regional:
visão política acadêmica:

Componentes da mesa:

•Dep. Federal Francisco Praciano
•Sen. Arthur Virgílio Neto
•Sen. Jefferson Praia
•Dep. Estadual Luís Castro
•Dept de Economia e análise
•Dept de Economia UNINORTE –
•Econ. Serafim Correa
•FENECO – Elder Silva
•CACEC – Felipe Raphael

Coquetel de Encerramento

INSCRIÇÕES:

As inscrições serão realizadas a partir do dia 08 de junho até as datas do evento.

As reservas e pré-reservas serão agendadas e pagas apenas nas universidades e na FIEAM.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SERAFIM CORRÊA NA UFAM



Myrna Libermann*

No dia 27 de Maio, ocorreu no auditório da FES (Faculdade de Estudos Sócias) na Universidade Federal do Amazonas uma palestra ministrada pelo ex-prefeito e economista Serafim Correia, a pedido de alunos do curso de ciências econômicas para fins de aprendizagem nas questões publicas sobre gestão.

O economista debateu questões de fundamental importância sobre educação, transporte e saúde, problemas que fazem parte do cotidiano de grandes cidades brasileira e inclusive da cidade de Manaus. Falou de recursos e impostos e intensificou a noção fundamental de que os pobres são os que mais pagam impostos e os que menos usufruem dos benefícios desse dinheiro arrecadado.

Falou ainda sobre as diretrizes da política de mobilidade urbana e do transporte coletivo em todo o Brasil, intensificou que o transporte é uma pratica centralizada de cartéis que ditam quem deve ganhar e quem deve pagar e que a população é quem financia tais organizações, pois é exclusivamente a tarifa da passagem de ônibus a grande fonte de riqueza das empresas de transporte. Foi explicitado que o reajuste da passagem é previsto por lei, mas destacou-se o fato de que não adianta pagar reajustes e aumentar a passagem se o transporte continuar ineficiente e de péssima qualidade como esta na cidade de Manaus. Propôs políticas para estimular a eficiência e eficácia dos serviços de transporte publico com a introdução de tecnologias avançadas como “A contagem de Créditos em Cartões Magnéticos” onde a freqüência escolar seria a garantia dos alunos a meia passagem e essa freqüência seria medida todos os dias quando o aluno entrasse e saísse da escola através de maquinas para cartões magnéticos colocados em instituições escolares sejam municipais, estaduais e federais, para a contabilização da freqüência do aluno, que agora não seria mais com lápis e pajela feito pelos professores em sala de aula, o que demanda tempo e paciência, política eficiente já instaurada nas grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro, que oferece o serviço de meia passagem a estudantes.

Também deu ênfase a problemas graves de infra-estrutura, violência e meio ambiente que necessitam de políticas publicas articuladas nacionalmente para evitar o agravamento de tensões sociais e diminuir os riscos à sustentabilidade ambiental e de entraves ao crescimento econômico.





*Aluna de Economia pela UFAM e pesquisadora do NCPAM

terça-feira, 26 de maio de 2009

MILHARES DE DEMISSÕES NA VALE DO RIO DOCE



A Segunda maior mineradora do mundo se prepara para ser a primeira, demitindo em massa milhares de trabalhadores. A Vale é uma das controladoras da Log-In Logística S.A conjugada com a Lajes Logística S.A. e com o grupo da coca-cola do Amazonas, interessados na construção do Porto Privado das Lajes, localizado na Zona Leste de Manaus. A crise pode atrapalhar os planos dos afoitos, que ameaçavam construir a qualquer custo o empreendimento nas confluências do Majestoso Encontro das Águas.

Nazareno Godeiro, de Belo Horizonte (MG)

No dia 31 de maio, acaba o acordo de licença-remunerada na Vale. Somente 1.300 funcionários estiveram nessa licença, a maioria no estado de Minas Gerais. Ao todo, 6.500 funcionários tiveram férias coletivas.

Desde o início da crise econômica mundial, a Vale demitiu cerca de 2 mil trabalhadores diretos e 12 mil terceirizados, de um total de 120 mil trabalhadores em todo o mundo, sendo a metade terceirizada.

Nos dias 21 e 22 de maio, a empresa está convocando os sindicatos para informar sua política para o próximo período. Em reuniões preliminares, a Vale confirmou demissões massivas em alguns lugares.

Vale alega queda na produção e nos preços

A queda de 45% de aço bruto no mundo em 2008 levou a empresa a cortar a produção de minério de ferro de 295 milhões de toneladas no ano passado para uma meta de 200 milhões em 2009. Só no primeiro trimestre de 2009, a Vale produziu 37% menos minério de ferro. A empresa está comercializando o minério com preços 20% menores.

Com a crise, a empresa paralisou parcialmente ou totalmente as minas improdutivas. Quatro foram paralisadas em Minas. Está deslocando a produção de minério de ferro de Minas para Carajás, no Pará, onde o produto tem teor mais alto de ferro. A Vale paralisou minas de níquel no Canadá e na Indonésia. Também diminuiu a produção de minério de ferro, manganês, níquel, alumínio e caulim.

Situação é excelente

A Vale é uma das empresas mais rentáveis do mundo. Para fazer uma comparação, o lucro líquido dela em 2008 foi o equivalente a 50 vezes o lucro líquido da Embraer no mesmo período e 220 vezes o lucro líquido da GM do Brasil no primeiro trimestre de 2009.

As vendas batem recordes desde 2002 e o EBTIDA, lucro operacional antes das despesas financeiras, que reflete a criação líquida de valor por parte dos trabalhadores, é de quase a metade do faturamento. Os acionistas recebem todo ano, no mínimo, R$ 5,5 bilhões.

A situação das suas concorrentes é drástica. A anglo-australiana Rio Tinto, segunda maior produtora de minério de ferro do mundo, tem uma dívida superior ao seu valor de mercado. Ela pretende demitir 14 mil funcionários e está sendo adquirida pela Chinalco, mineradora chinesa. A maior mineradora do mundo, a BHP, também anglo-australiana, está fechando minas e demitindo 6 mil trabalhadores. Seu lucro líquido caiu 56% em 2008 e ela teve uma queda grande no seu valor.

A Vale poderia argumentar que os resultados de 2008 ainda não refletiam a crise. Porém o balanço financeiro do primeiro trimestre de 2009 revela que, apesar de haver uma queda de 9% no faturamento, o lucro líquido caiu somente 1%.

Por isso, no relatório anual de 2008, a direção afirma: “A Vale está preparada para superar o ciclo de baixa tendo em vista seus ativos de alta qualidade e baixo custo e sua solidez financeira”.

Se a situação da empresa é excelente, por que a Vale realizará demissões em massa?

No mesmo documento de 2008, a Vale informa a seus acionistas: “Durante o ciclo expansionista, a maximização da produção foi fundamental para a maximização de valor, e conseguimos expandir nossa produção agregada a uma taxa média anual de 11,2%desde 2003. No cenário atual, a prioridade se alterou para a minimização de custos como uma importante ferramenta para a criação de valor e estamos perseguindo esse objetivo através de inúmeras iniciativas para reduzir custos operacionais e de investimentos. (...)

Nossa visão é ser a maior empresa de mineração do mundo (...). Continuamos a rever as oportunidades de fazer aquisições estratégicas e focamos em disciplina da gestão de capital, a fim de aumentar o retorno sobre o investimento e retorno total aos nossos acionistas.”

Seguindo essa estratégia, desde dezembro de 2008 a Vale gastou cerca de R$ 4,8 bilhões adquirindo minas na Colômbia, Argentina, África, Canadá e Brasil.

A empresa demitirá massivamente trabalhadores para cortar custos e manter muito dinheiro em caixa e fazer compras de minas estratégicas, diversificando seus produtos para se tornar a maior mineradora do mundo.

Estima-se que o corte na produção do minério de ferro da Vale em 2009 será de 25%. Somente neste primeiro trimestre, a queda foi de 37%.

Isso, provavelmente levará, a Vale a demitir aproximadamente 20% da sua força de trabalho, isto é, cerca de 10 mil funcionários, principalmente em Minas Gerais.

Consequências drásticas

O trabalhador da Vale é muito produtivo. Em seis horas de trabalho, ele paga seu salário mensal, com encargos e tudo. Os gastos com mão-de-obra representam apenas 6% do faturamento da empresa.

Para cada demissão na Vale, segundo o Serviço Geológico Brasileiro, serão 13 empregos perdidos na cadeia produtiva. Caso se comprove a demissão de 10 mil trabalhadores, serão 150 mil demitidos no total.

Além disso, a empresa é responsável por 79% da produção de minério de ferro do Brasil. “As exportações líquidas da Vale responderam por 65,2% do superávit da balança comercial brasileira em 2008”, segundo seu relatório anual.

Para os municípios mineradores, principalmente em Minas, onde se concentram 80% dos cortes produtivos da Vale, as consequências são trágicas. A arrecadação de royalties da mineração no município de Congonhas, em dezembro de 2008, caiu de R$6,5 milhões para R$1,7 milhão.

Grandes municípios mineradores como Itabira, Barão de Cocais, Itabirito, Mariana, Congonhas, Ouro Preto e Nova Lima tiveram uma queda de arrecadação média de 23% no primeiro trimestre de 2009. O significado disso para cidades que dependem essencialmente da mineração é uma queda abrupta nos recursos.

Sacrifício para garantir lucros de bancos

No mínimo, 61% das ações da Vale estão em mãos estrangeiras. Porém esse número certamente é maior, pois na Valepar, consórcio que controla a Vale, a Mitsui, que é um grande conglomerado japonês, possui 23% das ações. Além disso, dos investidores na Bovespa, a maioria é estrangeira.

Porém é necessário identificar quem são esses investidores estrangeiros. Na ata da assembleia de 16 de abril, aparecem os nomes de vários acionistas estrangeiros. Entre esses investidores estão grandes bancos internacionais como o Citibank, um dos maiores do mundo e outro grande, o HSBC. Também o JP Morgan Chase Bank, um dos maiores dos EUA e que movimenta uma carteira de US$ 2,3 trilhões. O Barclays Global Investors, grande banco da Inglaterra, cujos fundos movimentam US$ 2,8 trilhões. O Fidelity Management, maior fundo mútuo dos EUA, com US$ 1,6 trilhão em carteira. O Vanguard Emerging Markets, nono maior fundo dos EUA, com US$ 1,3 trilhão. O Morgan Stanley, dos EUA, que opera US$ 779 bilhões em 33 países. O Templeton, dos EUA, que opera em 30 países com US$ 411 bilhões, e assim por diante.

São esses especuladores internacionais que determinam a orientação de negócios para Roger Agnelli, que gerencia a Vale a serviço de grandes bancos estrangeiros no Brasil. Curiosamente, são praticamente os mesmos fundos de investimentos que são donos da Embraer.

Bilhões para acionistas e Mega-Sena a executivos

Apesar da crise, os acionistas da Vale aprovaram na sua assembleia geral de abril manter o pagamento de R$ 5,7 bilhões para eles mesmos este ano. É o mesmo pagamento efetuado em 2008, ano recorde para a empresa.

Essa mesma assembleia aprovou um pagamento anual de R$ 70 milhões como honorários aos seis diretores executivos da empresa. Isso significa uma Mega-Sena para cada diretor, ou R$ 13 milhões por ano.

Esses mesmos executivos informam, no relatório anual de 2008, perdas com a especulação financeira em derivativos: “mudanças cambiais nos levaram a reportar lucros (perdas) em moedas estrangeiras da ordem de US$ 1,011 bilhão...”.


* Nazareno Godeiro é Jornalista

Fonte: Site do PSTU

segunda-feira, 25 de maio de 2009

CRISE ECONÔMICA AFETA SETOR DE RECICLADOS EM MANAUS.



Desta forma, é necessário que o poder público ofereça ajuda a essas empresas criando incentivos também na área da indústria da reciclagem, oferecer linhas de financiamento para os catadores para incentivar a criação de galpões de coleta, ajudar na orientação e na educação dos catadores, pois só comprar o lixo de catadores e sucateiros não é a solução, deve-se também investir em programas educacionais sobre o ambiente e a importância da reciclagem do lixo para que eles também passem para a população esses aprendizados na hora da coleta


Myrna Libermann*

Em âmbito mundial a crise econômica afeta todos os setores: imobiliário, financeiro e as grandes multinacionais, bancos entram em estado de alerta, financiamentos negados, ações caindo rapidamente, desemprego em massa, paralisação da produção nas fábricas e a preocupação de um amanhã incerto, fatores que estão influenciando o decorrer deste ano de 2009 e prejudicando a vontade de grandes empresas e do consumidor.

Mas quem sofre realmente com essa crise mundial? Grandes bancos, multinacionais, empresários riquíssimos? A surpresa para muitos é saber que as grandes oscilações da economia mundial, que antes pareciam prejudicar só a escala macroeconômica, estão mais perto do que imaginávamos prejudicando a população individualmente, tanto com o desemprego, como com a quebra de microempresas, entre elas e de maior surpresa para a maioria da população, é a do setor de reciclagem, que viu os preços dos seus produtos desvalorizarem-se rapidamente.

Um exemplo de referência em reciclagem na cidade de Manaus é o Instituto Ambiental Dorothy Stang que, de forma cooperativa e comunitária, atua na área coletando cerca de trinta toneladas de lixo por mês, agregando 27 famílias de catadores, elo mais importante da cadeia da reciclagem, arrecadando cerca de 84 Kg de lata mensalmente e mais dezenas de quilos de papelão e plástico que são recolhidos das empresas do PIM e repassados aos pequenos armazéns do Instituto distribuídos pelos bairros de Santa Etelvina, Monte das Oliveiras e Centro da cidade, onde ocorrem a triagem e a reciclagem do material, retornando ao consumidor em forma de novas embalagens e aos catadores em forma de lucro.

O mercado de reciclagem, no entanto, vem enfrentando grandes dificuldades devido à diminuição dos valores pagos pelos materiais reciclados. Com o início da crise o número de material coletado nas ruas caiu de trinta toneladas ao mês para vinte a dezessete toneladas mensais, o preço dos produtos arrecadados também presenciou uma grande queda. Os rendimentos provenientes da coleta de materiais diminuíram em torno de 50%. O preço do quilo do plástico que custava R$ 1,00 passou para R$ 0,30, o alumínio da latinha de refrigerante ou cerveja custava R$ 3,50 baixou para R$1,00. O preço do papel, assim como o do papelão, caiu drasticamente gerando uma grande regressão do faturamento com o produto reciclado. A receita média semanal que antes era de R$ 120,00 por catador atualmente caiu para R$ 100,00. “Agora é preciso dobrar o trabalho para manter o mesmo salário no fim do mês, já que a renda das famílias que participam do instituto depende da coleta do lixo” relata Dona Aldenice, chefe dos catadores de uma das unidades do IADS localizada no bairro Monte das Oliveiras.

O valor diminuiu por conseqüência da redução na demanda por parte das empresas por produtos reciclados, sem a produção eficiente de antes, a vendagem empresarial caiu provocando uma paralisação na fabricação de novos produtos que utilizavam materiais reciclados em sua estrutura.

Desta forma, é necessário que o poder público ofereça ajuda a essas empresas criando incentivos também na área da indústria da reciclagem, oferecer linhas de financiamento para os catadores para incentivar a criação de galpões de coleta, ajudar na orientação e na educação dos catadores, pois só comprar o lixo de catadores e sucateiros não é a solução, deve-se também investir em programas educacionais sobre o ambiente e a importância da reciclagem do lixo para que eles também passem para a população esses aprendizados na hora da coleta, a fim que haja condições de melhorar a produtividade e que o comércio do lixo cresça na cidade de Manaus, pois no mundo afora empresas ganham milhões com esse produto aparentemente sem valor. Além do mais é de conhecimento geral que a maioria dos trabalhadores da coleta seletiva é proveniente de bairros periféricos, com baixa escolaridade e que a criação de uma quantidade cada vez maior de cursos de técnicas de reciclagem e produção de obras-primas em arte e artesanato, agregando valor aos produtos reciclados contribuiria não apenas para o reconhecimento de questões vitais como a preservação do meio ambiente, mas também para auxiliar na busca de novos caminhos para a arte e a cultura que acompanha os elementos de crescimento do homem como ser pensante e dinâmico, dando ênfase ao processo de inclusão social a esses cidadãos.

A população manauara precisa aprender a reciclar, precisa aprender a dar valor ao trabalhador que usa o lixo como ferramenta de trabalho e renda, que transformam algo inútil em útil novamente, assim sendo, o principal incentivo para essas pessoas que trabalham na coleta de lixo seria se nós, pessoas físicas, separássemos o lixo de nossas residências e entregássemos nos postos de coletas a esses trabalhadores, sem dúvida seria um grande passo no desenvolvimento social e econômico de Manaus.

*A autora é graduanda de Ciências Econômicas da UFAM e pesquisadora do NCPAM.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CADÊ A LATINHA QUE ESTAVA AQUI?

Mas a pergunta principal é: O sumiço das latinhas é ocasionado pelo benéfico ambiental ou financeiro? Difícil acreditar que seja ambiental, apesar do trabalho de coleta de latinhas também ajudar a limpar o meio ambiente, o interessante é saber que não há mais latinhas jogadas no rio, enquanto o resto dos outros materiais que também poderiam ser utilizados com maior eficiência no processo de reciclagem ainda continue boiando por lá, pois o preço da matéria prima do alumínio torna-se mais vantajoso para a venda do que o plástico ou o papelão. Para cada latinha se paga R$: 0,03 e para o papelão R$: 0,01, também o limite de vida da matéria prima é mais vantajoso, pois o alumínio demora de 100 a 500 anos para se decompor.

Myrna Libermann*

Quem nunca teve a impressão de esta sendo seguido por um sucateiro, enquanto se toma uma latinha de coca-cola, que atire a primeira pedra. Parece ate brincadeira quando olhamos para alguma rua suja e vemos todo tipo de lixo ali, menos a preciosa latinha de alumínio que parece tomar sumiço assim que utilizada. Socorro! Não se ver mais latinhas na rua.

Mas não se preocupem, o sumiço das latinhas parece ter significado, já que o Brasil apesar de possuir apenas 8% dos municípios fazendo coleta seletiva, está em destaque no ranque de reciclagem de alumínio. Anualmente são mais de 9 bilhões de latinhas que voltam ao processo de fundição, movimentando um mercado de 750 milhões de reais, e que ainda proporciona uma economia de energia equivalente a 95% menos do que uma embalagem produzida com alumínio primário, significando uma economia gigantesca para ser usada em outras frentes produtivas da sociedade.

Nos grandes centros urbanos da Europa, America do Norte e alguns países Asiáticos, o lixo é usado na produção de energia para casas e fabricas, o que significa uma diminuição no uso de material fóssil que polui a atmosfera. Em cidades, como Manaus, por exemplo, onde mais de 25% da população ainda sofrem com o problema de abastecimento de energia, parece brincadeira saber que a lata que jogamos no lixo (na verdade nos arrancam das mãos assim que terminamos a ultima gota de coca-cola) poderia ser usada também para alimentar a rede elétrica de nossas casas e nos garantir a tão esperada novela das oito, sem precisarmos pagar a mais por isso.

A grande parte das latas coletadas se transforma em novas embalagens que seguem aos fabricantes de bebidas, depois de chegar ao consumidor, elas voltam a ser recicladas novamente criando a Cadeia da Reciclagem cujo elo principal é o catador de lixo, que poderia também ser intitulado de caçador de lixo, já que tal personagem vive por ai, a procura de uma latinha para amassar e vender.

Mas a pergunta principal é: O sumiço das latinhas é ocasionado pelo benéfico ambiental ou financeiro? Difícil acreditar que seja ambiental, apesar do trabalho de coleta de latinhas também ajudar a limpar o meio ambiente, o interessante é saber que não há mais latinhas jogadas no rio, enquanto o resto dos outros materiais que também poderiam ser utilizados com maior eficiência no processo de reciclagem ainda continue boiando por lá, pois o preço da matéria prima do alumínio torna-se mais vantajoso para a venda do que o plástico ou o papelão. Para cada latinha se paga R$: 0,03 e para o papelão R$: 0,01, também o limite de vida da matéria prima é mais vantajoso, pois o alumínio demora de 100 a 500 anos para se decompor.

Sabemos que o futuro da humanidade depende das relações estabelecidas entre o homem e o meio ambiente e que a reciclagem é um saber, uma experiência sensorial singular que permite operacionalizar o conhecimento de maneira transformadora.

*Graduanda em Economia pela UFAM e Pesquisadora do NCPAM

segunda-feira, 30 de março de 2009

NOBEL DE ECONOMIA DEFENDE A NACIONALIZAÇÃO DOS BANCOS NOS E.U.A

O governo dos Estados Unidos anunciou o segundo plano para ajudar os bancos a livrarem-se dos chamados ativos tóxicos, o denominado Plano de Investimento Público-Privado. O plano pretende convencer investidores privados a comprar dos bancos os títulos que ninguém quer, incentivando-os com uma participação do Estado e a concessão de empréstimos públicos que cobrem quase todo o investimento. O prêmio Nobel da Economia, Paul Krugman, criticou o plano e voltou a defender a nacionalização dos bancos, como meio de enfrentar a crise.

O plano é uma segunda tentativa, depois do fracasso do plano Paulson, que foi aprovado pelo Congresso norte-americano em Outubro, mas que esbarrou na dificuldade de definir o preço certo dos ativos tóxicos. Assim, as autoridades acabaram por utilizar o dinheiro (cerca de 700 bilhões de dólares) para recapitalizar os bancos.

Agora, segundo o plano do secretário do Tesouro Timothy Geithner, são os investidores privados que definem, em negociação com os bancos, qual o valor a pagar pelos ativos. Mas o Estado participa no negócio em partes iguais e ainda empresta, com garantias, a maior parte do dinheiro para a aquisição.

De acordo com um exemplo dado pelo próprio Tesouro dos EUA, se o valor negociado pelo ativo for de 84 dólares, o investidor privado entra apenas com seis dólares, o Tesouro com outros seis dólares e os restantes 72 (seis por cada dólar investido) são obtidos através de um empréstimo da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC). O Estado, apesar de partilhar um eventual lucro com o investidor privado, caso o título não seja totalmente perdido, a exposição a prejuízos é elevada, devido ao empréstimo concedido.

A divulgação do plano provocou euforia nas Bolsas de Valores de todo o mundo. Euforia não compartilhada pelo prêmio Nobel da Economia, Paul Krugman. Para ele, "este plano vai produzir grandes ganhos para os bancos que na verdade não precisavam de qualquer ajuda; mas, em contrapartida, pouco vai fazer para tranquilizar o público em relação aos bancos que estão seriamente descapitalizados. E temo que quando o plano fracassar, como quase certamente vai acontecer, a administração terá dado o último tiro: não vai conseguir levar ao Congresso outro plano que realmente funcione", escreveu no seu blog no New York Times.

Krugman apela a que a Administração Obama imite a "solução sueca" para a crise financeira, nacionalizando os bancos em dificuldades.


Publicado em Esquerda.Net

sexta-feira, 20 de março de 2009

CRISE CAPITALISTA: APENAS UM INÍCIO.

Porque se trata de uma crise sistêmica, que anuncia o fim de um modo de acumulação, as medidas de recuperação conjuntural terão um efeito limitado. Uma saída para a crise que conduza à emergência de uma nova ordem produtiva e de um novo regime de acumulação não depende somente da economia. Exige uma nova correlação de forças, novas relações geopolíticas, novos dispositivos institucionais e políticos.

Daniel Bensaïd

O
capitalismo? "É compreensível que as pessoas não acreditem mais nele", confessa Tony Blair em pessoa(1). Quando se deixa de acreditar no inacreditável, uma crise de legitimidade, ideológica e moral se soma à crise social, e acaba por estremecer a ordem política. A crise atual não é uma crise a mais, equiparável à dos mercados asiáticos ou à da bolha da Internet.

Uma crise de fé

Trata-se, na realidade, de uma crise histórica - econômica, social, ecológica - da lei do valor, uma crise de medição e de excesso. A medição de tudo através do tempo de trabalho abstrato passou a ser - como anunciava Marx nos Manuscritos de 1857 - uma forma "miserável" de medir as relações sociais. "As crises econômica e planetária têm um ponto em comum", constata Nicholas Stern, autor em 2008 de um informe sobre a economia das mudanças climáticas. "Ambas são conseqüência de um sistema que não considera os riscos que seu funcionamento gera, que não leva em conta o fato de que pode conduzir a uma destruição superior ao benefício imediato que procura, e que subestima a interdependência entre os atores" (2). A lógica da corrida atrás do lucro, pelo "benefício imediato" é, com efeito, uma lógica a curto prazo, E a "concorrência não falsificada", por sua parte, é cega à "interdependência" sistemática.Um novo Brenton Woods? Um sistema de governo mundial? O problema é que a União Européia nem sequer tem sido capaz de criar uma agência de controle dos mercados financeiros em escala continental, ou de promover uma definição comum de paraísos fiscais! Desde outubro de 2008, Laurence Parisot tem se encarregado de deixar claro que o Estado deve desempenhar seu papel nos socorro das finanças, mas que deve retirar-se, quando os negócios recuperem seu curso lucrativo. Dito de maneira mais direta: que deve socializar as perdas para logo reprivatizar os lucros. Por trás de ter admitido que o Estado é o único capaz, de forma imediata, de "salvar a economia e os bancos", Jean-Marie Messier, ressuscitado do purgatório, não se esquece de explicar que "o guarda-chuva deverá fechar uma vez que a tempestade tenha passado". O Estado não deveria, assim, ser mais do que "um passageiro em meio à chuva" (3).

O plano de recuperação governamental descarrega o custo sobre os trabalhadores e os contribuintes. Por detrás do congresso de Reims, Martine Aubry pretendia descobrir que "torna-se inoperante atacar aos que se utilizaram do sistema, sem atacar o próprio sistema" (4). Contudo, o Partido Socialista se contenta em oferecer um contra-plano "equilibrado", de medidas supostamente sociais, mas em nenhum momento radicais, no sentido de que suponham uma nova redistribuição de riquezas em benefício do trabalho. Nada se falou sobre a nacionalização do sistema bancário e a criação de um serviço público para tratar do crédito, nada sobre uma reforma fiscal radical, nada sobre a necessidade de reorientar a construção européia. "Atacar o próprio sistema" seria atacar o poder absoluto do mercado, a propriedade dos grandes meios de produção e troca, a concorrência de todos contra todos. Até o liberal Nicolas Baverez define a banca como um "bem público da mundialização": "pelas suas características, tem a natureza de um bem público" (5). Seria de esperar, na verdade, que, dada esta "natureza", este bem público fosse submetido a gestão pública sob o controle público. Para Baverez, pelo contrário, o Estado deveria assegurar aos bancos uma "imunidade ilimitada" por suas perdas, e assumir os riscos ligados a seus lucros.

Atacar o coração do sistema suporia adotar-se uma blindagem social que proteja os trabalhadores das conseqüências da crise. Para isso, dever-se-ia romper os grilhões dos critérios de Maastricht e do Pacto da Estabilidade, restabelecer os controles políticos sobre o Banco Central europeu, abolir o Tratado de Lisboa, reorientar de maneira radical a construção européia, começando pela harmonização social e fiscal, e iniciar um processo constituinte de verdade. No mínimo, exigir a revogação do artigo 56 do Tratado de Lisboa que proíbe qualquer restrição aos movimentos do capital financeiro, assim como a "liberdade de estabelecimento", reconhecida no artigo 48, uma liberdade que permite ao capital mudar de lugar, para onde as condições lhe sejam mais favoráveis, e às instituições financeiras encontrar asilo onde lhes agrade.

Uma crise duradoura

Porque se trata de uma crise sistêmica, que anuncia o fim de um modo de acumulação, as medidas de recuperação conjuntural terão um efeito limitado. Uma saída para a crise que conduza à emergência de uma nova ordem produtiva e de um novo regime de acumulação não depende somente da economia. Exige uma nova correlação de forças, novas relações geopolíticas, novos dispositivos institucionais e políticos.

Se a crise de 1929 foi a da "emergência estadunidense", que emergência prefigura a crise atual? A chinesa? A de uma organização multipolar de espaços continentais? A de um sistema de governo mundial?

Em um tempo em que se invocam a necessidade de uma nova ordem monetária internacional e respostas globais, o próprio Giscard d’Estaing reconhece que "a gestão econômica da crise se tornou, na Europa, mais nacional durante a crise do que antes do seu início", e que "os instrumentos de intervenção são essencialmente nacionais" (6). A crise agudiza, na verdade, as diferenças nacionais e libera tendências centrífugas. Em nome de uma "correspondência necessária entre os espaços econômicos e sociais", Emmanuel Todd se arvora em paladino de um "protecionismo europeu" (7) que crie "as condições para a recuperação dos salários" e uma oferta que gere sua própria demanda. A questão não é doutrinária ou de princípios.

Proteger? Sim, mas quem, contra quem e como? Se a Europa começasse em adotar critérios sociais de convergência em matéria de emprego, renda, proteção social, direito do trabalho e harmonização fiscal, poderia, legitimamente, adotar medidas de proteção, não as dos interesses egoístas de seus empresários e financistas, mas a dos direitos e conquistas sociais. Poderia fazê-lo de maneira seletiva e pontual, adotando como contrapartida acordos de desenvolvimento solidário com os países do Sul em questões migratórias, de cooperação técnica, de comércio eqüitativo, sem ceder a um protecionismo de ricos, cujo efeito principal fosse disseminar os estragos da crise entre os países mais pobres.

Imaginar que uma medida de proteção alfandegária implicaria de forma mecânica em melhora nas condições sociais européias, como se pudesse ser tecnicamente neutra no contexto de uma luta de classes exacerbada pela crise, é uma enorme ingenuidade. Os trabalhadores acabariam afetados pelas travas burocráticas e fronteiriças, sem obter as respectivas vantagens sociais. Um protecionismo desta índole não resistiria muito tempo em razão de sua impopularidade, ou não tardaria em derivar para uma "preferência nacional" (ou européia) de corte chauvinista.

Refundar o capitalismo ou combatê-lo

Todos os governantes, de ontem e de hoje, de direita e de esquerda, acabaram por denunciar a loucura sistêmica dos mercados. Contudo, sua desregulação não tem sido fruto da famosa mão invisível, mas de decisões políticas e de medidas legislativas concretas. Foi a partir de 1985, quando era ministro da Economia o socialista Pierre Bérégovoy, que se concebeu a grande desregulamentação dos mercados financeiros e da bolsa de valores na França. Foi um governo socialista que, em 1989, liberalizou os movimentos do capital, antecipando-se a uma decisão européia. Foi o governo de Jospin que, ao privatizar mais do que os governos de Balladur e Juppé juntos, assentou as bases para que o capitalismo francês pudesse acolher fundos de investimentos especulativos. Foi um ministro das finanças socialista, Dominique Strauss-Khan, que propôs uma forte "desfiscalização" das célebres stock-options, e foi outro ministro socialista, Laurent Fabius, quem a pôs em prática. Foi um Conselho Europeu, com maioria social-democrata, que decidiu em 2002, em Barcelona, liberalizar o mercado de energia e o conjunto de serviços públicos, aumentar em 5 anos a idade de aposentadoria e sustentar os fundos de pensão. Foi a maioria do Partido Socialista que aprovou a sacralização da concorrência gravada no projeto do Tratado constitucional europeu de 2005. Foi seu voto, uma vez mais, que permitiu a adoção do Tratado de Lisboa, confirmando assim a lógica liberal da construção européia.

Para os salvadores do Titanic capitalista, a tarefa se anuncia dura. Um novo New Deal? Um retorno ao Estado social? Seria esquecer muito rápido que a desregulação liberal não foi um capricho doutrinário de Thatcher ou de Reagan. Foi a resposta à baixa das taxas de lucros, provocada pelas conquistas sociais do pós-guerra. Depois de 1973, "a incapacidade das políticas keynesianas para recuperar a atividade produtiva deixa o campo aberto a uma surpreendente contra-revolução conservadora", recorda Robert Boyer (8). Voltar ao ponto de partida seria reencontrar-se com as mesmas contradições. Como comenta ironicamente Jean-Marie Harribey: "regular sem transformar não é regular".

Por trás da crise de 1929, para redistribuir as cartas da riqueza e do poder e para anunciar uma nova onda expansiva, fez-se necessário nada menos do que uma guerra mundial. A colocação em marcha de um novo modelo de acumulação, e o, eventual, impulso de uma nova grande onda de crescimento envolverão o surgimento de novas hierarquias planetárias de dominação, uma re-acomodação de nações e continentes, novas condições para a valorização do capital, uma transição da matriz energética.

Tal mudança não pode ser resolvida através da amabilidade diplomática, nos tapetes verdes das chancelarias, mas no campo de batalha, através de lutas sociais. A crise, como bem escreveu Marx, supõe "o estabelecimento por força da unidade entre momentos (produção e consumo) impulsionados de forma autônoma".

Na realidade, não é mais do que um começo

"A crise financeira - insistia Nicolás Sarkozy em seu discurso de Toulon - não é a crise do capitalismo. É a crise de um sistema afastado dos valores fundamentais do capitalismo, dos que - de certo modo - o traíram. Quero deixar claro aos franceses: o anticapitalismo não oferece nenhuma solução para a crise atual". A mensagem é clara: o inimigo não é o capitalismo, mas o anticapitalismo.

O presidente retornou à questão na sua intervenção no colóquio sobre a refundação do capitalismo, organizado, por sua iniciativa, em 8 de janeiro de 2009, pela Secretaria de Estado: "A crise do capitalismo financeiro não supõe a do capitalismo como tal. Não é um chamamento a sua destruição, o que seria uma catástrofe, mas a sua moralização". Suas palavras receberam um vigoroso respaldo de Michel Rocard: "Devemos começar por aí: nosso propósito é salvar o capitalismo". Estas declarações de guerra social traçam uma linha forte entre dois campos. É preciso eleger: ou discutir com os proprietários como refundar, reinventar, moralizar o capitalismo, ou lutar junto com os explorados e despossuídos para derrotá-lo.

Ninguém poderia predizer como serão as revoluções futuras. O que temos, unicamente, é um fio condutor. Trata-se de duas lógicas de classe que se enfrentam. A do lucro a qualquer preço, do cálculo egoísta, da propriedade privada, da desigualdade, da concorrência de todos contra todos, e a do serviço público, dos bens comuns da humanidade, da apropriação social, da igualdade e da solidariedade.

Notas:

(1) Le Journal du Dimanche, 14 de dezembro de 2008.
(2) Le Monde, 15 de dezembro de 2008.
(3) La Tribune, 15 de janeiro de 2009.
(4) Journal du Dimanche, 5 de outubro de 2008.
(5) Le Monde, 26 de novembro de 2008.
(6) Le Monde, 13 de janeiro de 2008.
(7) Emmanuel Todd, Après la démocratie, París, Gallimard, 2008.
(8) Libération, 29 de dezembro de 2008.


Daniel Bensaïd é professor de Filosofia na Universidade de Paris VIII. Foi um dos fundadores das Juventudes Comunistas Revolucionárias e da Liga Comunista Revolucionária. Atualmente é um dos intelectuais de referência do Novo Partido Anticapitalista, recentemente constituído na França.

Publicado em Sin Permiso, em castelhano, traduzido pela rede Adital de Notícias
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sexta-feira, 13 de março de 2009

OS ECONOMISTAS E A CRISE

Ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma posição e a mesma dificuldade liberal de compreender e incluir nos seus modelos e recomendações as contradições e as lutas políticas próprias do mundo econômico.

José Luís Fiori

Finalmente, no dia 17 de fevereiro de 2009, o presidente Barack Obama sancionou seu pacote de estímulo à economia americana, no valor de US$ 787 bilhões. Uma semana antes, seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, anunciara um outro pacote de medidas que podem chegar aos US$ 2 trilhões, para reativar o crédito e salvar o sistema financeiro americano. Mas, apesar do volume de recursos envolvidos, não se sabe exatamente quando, onde e como serão gastos, nem tampouco se sabe se a sua utilização produzirá os efeitos desejados.

No meio desta confusão, só existem duas coisas que podem ser ditas com toda certeza: a primeira, é que faça o que faça o governo americano, será absolutamente decisivo para a evolução da crise no resto do mundo; e a segunda, que apesar das incertezas, todos os governos envolvidos estão fazendo a mesma aposta e adotando as mesmas políticas de redução das taxas de juros e adoção de sucessivos pacotes fiscais de ajuda ao sistema financeiro e estímulo à produção e ao emprego, além de defender a re-regulação dos mercados.

Muitos consideram esta convergência uma vitória da "economia keynesiana", mas do nosso ponto de vista ela não tem a ver com nenhum tipo de vitória ou derrota, no campo da teoria econômica. Trata-se de uma reação emergencial e pragmática frente à ameaça de colapso do poder dos Estados e dos bancos e, como consequência, dos sistemas de produção e emprego. Foi uma mudança de rumo inesperada e inevitável que foi imposta pela força dos fatos, independente da ideologia econômica dos governantes que estão aplicando as novas políticas "intervencionistas".

Na verdade, o que se está assistindo é uma versão invertida da famosa frase da Sra. Thatcher: "There is no alternative". Só que agora, depois de setembro de 2008, a nova convergência aconteceu sem maiores discussões teóricas ou ideológicas e sem nenhum entusiasmo político, ao contrário do que ocorreu com a grande onda e hegemonia do pensamento liberal-conservador, dos anos 1980/90, que atravessou os planos da vida política, econômica e intelectual das sociedades capitalistas. A teoria econômica ortodoxa não previu e não sabe explicar a crise atual e, assim, não tem nada para dizer nem propor neste momento. São apenas lamentos e exclamações morais contra os "vícios privados" e os "excessos públicos", por consequência, as teses ortodoxas e a ideologia liberal saíram do primeiro plano, mas não morreram nem desapareceram, pelo contrário, permanecem atuantes em todos as frentes e trincheiras de resistência às políticas estatizantes que estão em curso. Uma resistência que tem crescido a cada hora que passa, dentro e fora dos EUA.

Do outro lado da trincheira, quase todos economistas keynesianos interpretam esta crise mundial seguindo o argumento clássico de Henry Minsky (Minsky, P.H., 1975, "The Modeling of Financial Instability: An Introduction", 1974, Modelling and Simulation; John Maynard Keynes, 1975, e "The Financial Instability Hypothesis: A Restatement", 1978, Thames Papers on Political Economy), sobre a tendência endógena das economias monetárias à "instabilidade financeira", às bolhas especulativas e aos períodos de desorganização e caos provocados pela expansão desregulada do crédito e do endividamento, momentos em que se impõe a intervenção pública e a regulação dos mercados. Apesar de suas divergências internas, a respeito de valores, procedimentos e velocidades, todos os keynesianos acreditam na eficácia, e estão propondo uma intervenção massiva do Estado para salvar o sistema financeiro e reativar o crédito, a produção e a demanda efetiva.

O problema é que a teoria de Minsky explica a origem imediata da crise do mercado imobiliário americano, mas não é suficiente para entender e prever a complexidade do seu desenvolvimento posterior. Por isto, os keynesianos também não sabem o que vem pela frente, nem têm como garantir antecipadamente o sucesso de suas recomendações. Neste ponto, existe um paradoxo que em geral é escondido pela teoria econômica: o fato dos keynesianos compartilharem com os economistas liberais uma espécie de "erro liberal invertido" e complementar: os liberais acreditam na possibilidade e na eficácia da eliminação do poder político e do Estado do mundo dos mercados; enquanto os keynesianos acreditam na possibilidade e na eficácia da intervenção corretiva do estado no mundo econômico.

Mas tanto ortodoxos, quanto keynesianos, trabalham com a mesma idéia de um Estado homogêneo e externo ao mundo econômico, que num caso é capaz de se retirar e ficar na porta do mercado, cuidadoso e atento como um guarda florestal, ou então, no outro caso, é capaz de formular políticas econômicas sábias e eficazes a cada nova crise, como um Papai Noel à espera do próximo Natal, para distribuir seus presentes. Por isto, ortodoxos e keynesianos compartilham a mesma posição e a mesma dificuldade liberal de compreender e incluir nos seus modelos e recomendações as contradições e as lutas políticas próprias do mundo econômico. Não conseguem entender, por exemplo, que na origem financeira da atual crise econômica mundial não houve um erro ou "déficit de atenção" do poder público dos EUA, onde a desregulamentação dos mercados financeiros e as "bolhas" ou "ciclos de ativos" cumpriram - nos anos 80/90 - um papel decisivo na financeirização capitalista e no enriquecimento privado, mas também no fortalecimento do poder fiscal e creditício do Estado e da moeda americanos. Como consequência, agora, os passivos que estão realimentando a própria crise não são uma "massa podre homogênea", pelo contrário, eles têm nome e sobrenome, individual, corporativo, partidário e nacional, e envolvem interesses contraditórios que estão travando uma luta ferrenha em todos os planos e instâncias nacionais e internacionais.

O Estado e o capital financeiro americanos foram sócios no fortalecimento do poder político e econômico americano nos década de 80/90, e agora se defenderão à morte a cada novo passo e a cada nova arbitragem que imponha seu enfraquecimento dentro e fora dos EUA. Por isto, esta crise não tem uma solução técnica e não existe possibilidade de um acordo político à vista entre os grupos de poder americanos e entre as grandes potências. Os economistas e as autoridades governamentais de todo o mundo estão num vôo cego. A crise começou como um tufão, mas deverá se prolongar e aprofundar na forma de uma "epidemia darwinista".

Artigo publicado originalmente no Valor Econômico.

COMBATER A DESIGUALDADE É A FORMA MAIS EFICAZ DE ENFRENTAR A CRISE.

Lidar com a pobreza, na verdade, é a forma mais eficaz de lidar com uma crise econômica, muito mais eficaz do que a estratégia de se dar dinheiro aos bancos ou grandes empresas. É assim que se restauram os fluxos de renda, de capital, e a capacidade de tomada de empréstimo da população e do sistema como um todo, diz James Galbraith.

Tiago Thuin e Clarissa Pont

BRASÍLIA - O professor James Galbraith, diretor do Projeto Desigualdade na Universidade do Texas-Austin, não é apenas o herdeiro de um nome ilustre (seu pai, John K. Galbraith, foi um dos economistas mais influentes nos EUA do pós-guerra). Ele foi um dos primeiros a prever a atual crise econômica, ainda em 2004, e por isso tem recebido cada vez mais atenção da imprensa e do governo estadunidenses. Seu livro "The Predator State: How Conservatives Abandoned the Free Market and Why Liberals Should Too” (O Estado Predador: como os conservadores abandonaram o livre mercado e por que os liberais também deveriam fazê-lo- 211 páginas, Free Press, ainda sem previsão de ser lançado no Brasil) está entre os 3 mais vendidos na categoria "governo" da Amazon.com.

No Brasil para participar do Seminário Internacional sobre Desenvolvimento do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Galbraith - que irá participar de um painel sobre o papel do estado no pós crise - concedeu entrevista à Carta Maior, na qual explica que a crise, gestada pelas políticas irresponsáveis de desregulamentação bancária, está longe de ser superada - e que o caminho de sua superação passa antes pela ajuda à população em geral, principalmente aos mais pobres, do que pela ajuda a bancos e grandes empresaS.

O senhor acredita que a ajuda econômica prevista pelo Congresso americano terá sucesso?

James Galbraith
- Acho que as duas - o pacote de estímulo e o socorro aos bancos - são complementares. O estímulo econômico depende do socorro bancário, e o problema deste é que a tática, a visão básica por trás dele, que é de que comprar ações, oferecer capital aos bancos para fazer com que eles comecem a emprestar novamente, está errada. A razão pela qual os bancos não estão concedendo crédito é que há uma escassez de boas oportunidades de investimento, ou de tomadores de empréstimo com garantias apropriadas, com imóveis valorizados ou outras garantias.

E o problema com os bancos é que a carteria de ativos deles vale muito menos do que eles pensavam que valia. É uma insolvência maciça e, até que se lide com isso, não haverá reconstrução do sistema financeiro.

Aqui no Brasil, apesar dos bancos estarem numa situação bem mais sólida do que nos Estados Unidos, foram tomadas medidas de estímulo ao crédito e de capitalização. O senhor acredita que essas medidas terão efeito no sentido de estimular os bancos a fornecerem crédito?

JG - Não estou familiarizado com a situação específica do Brasil, mas acho que a mesma idéia geral [mencionada no caso dos EUA] se aplica. O crédito carece de uma comunidade tomadora de crédito forte, que tenha condições de tomar emprestado, e é isso que simplesmente não está presente numa crise.

O senhor escreveu um livro recentemente, o Estado Predador, no qual advoga pela renúncia às práticas neoliberais. A sua opinião é que a intervenção do estado na economia veio para ficar, ou é só uma reação temporária de pânico?

JG - Veja bem, o principal argumento de meu livro é que nos EUA - e, creio, em toda a parte - o ideal neoliberal já havia sido abandonado. O governo conservador foi um governo intervencionista - praticando a intervenção em prol de uma base estreita, de apadrinhados nos setores de energia, militar, mineiro, nas grandes mídias, no setor financeiro. Grupos muito pequenos mas muito poderosos na prática formaram e controlaram o governo por um longo período, e o resultado - especificamente no setor financeiro - foi um desmoronamento completo da confiança da parte da comunidade como um todo na segurança do sistema, nas regras que garantiam a segurança do sistema. E é essa a causa da explosão de empréstimos subprime cada vez mais arriscados, que por sua vez envenenou toda a estrutura de ativos dos bancos e toda a economia.

O senhor crê que uma regulação financeira mas severa, nos moldes daquela imposta nos EUA de 1933 em diante, será imposta a partir de agora nos EUA? E globalmente?

JG - Sim, e têm que ser impostas em nível global, transnacional, e os mecanismos que vão pôr isso em prática já estão aí. A questão que proponho, então, é que é prematuro pensar na recuperação da economia financeira apenas a partir de um sistema regulatório melhorado. O problema jaz nas próprias instituições, que devem ser reconstruídas, com cujos ativos envenenados temos que lidar.

O senhor é diretor do Departamento de Estudos sobre a Desigualdade da Universidade do Texas-Austin. Desde o começo da crise o enfrentamento da desigualdade, que era discutido em foros internacionais e por governos até então, ficou em segundo plano. Tem havido uma opinião de que esse é um assunto com o qual não se pode preocupar antes de superada a crise. O senhor acha que essa atitude é sensata, ou necessária?

JG
- Ora, como se luta contra a pobreza, contra a desigualdade? Justamente através da expansão da rede de segurança social. Na Grande Depressão de 29, praticamente toda iniciativa de maior porte se tratou de um meio de reduzir o risco, distribuindo ele e aumentando o padrão de vida na base da pirâmide econômica. Garantias de depósitos, o sistema de assistência e segurança social, as medidas para estabilizar a indústria e a agricultura, tudo foi nesse sentido, e foi assim que os EUA conseguiram sair da pior fase da crise econômica.

Lidar com a pobreza, na verdade, é provavelmente a forma mais eficaz de se lidar com uma crise econômica, muito diferente e muito mais eficaz do que a estratégia de se dar dinheiro aos bancos ou grandes empresas. É assim que você restaura os fluxos de renda, de capital, e a capacidade de tomada de empréstimo da população e do sistema como um todo.

Há uma opinião, algo difundida, de que o Brasil está melhor situado do que outros para enfrentar a crise, e poderia até superá-la no curto prazo. Qual a sua posição quanto a isso?

JG - Bem, como já disse, não estou familiarizado com a situação brasileira. Mas acho razoável dizer que o Brasil está numa posição sólida, comparado a alguns países - porém nenhum pedaço da comunidade global vai ser poupado dos efeitos da atual crise. E por isso é parte da responsabilidade dos países maiores e mais sólidos socorrer os outros, se quiserem ver uma solução efetiva da crise global. Não sei dizer se assumirão essa responsabilidade - isso é uma questão política.

Essa é uma crise que vai além da economia. Também é uma crise política - quais as razões políticas que levaram à crise, no seu entendimento?

JG - Passamos, nos EUA, por um período de desgoverno. Um abandono da responsabilidade pública, da regulação financeira séria. Essa é a raiz da crise, das hipotecas subprime, dos instrumentos baseados nesses derivativos, profundamente embrenhados no setor financeiro; essas coisas não teriam acontecido com uma regulação efetiva, só aconteceram porque o Executivo favoreceu seus cupinchas e largou de mão as responsabilidades públicas reconhecidas durante seis décadas.

De volta à questão da desigualdade: na última década do século 20, ela cresceu em todo o mundo, tanto em países que experimentaram recessões quanto em países que cresciam de maneira explosiva. O senhor vê nesta crise uma oportunidade, ou um risco de que a desigualdade global aumente ainda mais?

JG - Bem, em qualquer crise os pobres vão ser mais afetados do que os ricos. Mas uma diferença pode se ver nesta crise em particular: os setores mais atingidos foram os setores financeiros dos países mais ricos. Mas ao mesmo tempo você verá, por exemplo, uma disparidade crescente entre as Europas Oriental e Ocidental, devido à maneira como as moedas da Europa Central e Oriental eram lastreadas com libras e euros. E uma das implicações disso é que além de ser apropriado que os países reforcem suas próprias redes de segurança social, em economias regionalmente integradas, ou que almejem a integração os países mais fortes devem tomar medidas que reforcem esse tipo de política para a região como um todo.

Publicado em Carta Maior