quinta-feira, 17 de abril de 2008

XII Festival de Ópera – Ousadia e Inteligência


* Mario Nelson Duarte

Começou mais um Festival Amazonas de Ópera, o 12º da vitoriosa série.

E começou muito bem, com uma obra arrojada, criativa e inteligente, que soube adicionar recursos modernos aos itens que, precipalmente, caracterizam a produção operística. Ao contrário dos lastimáveis equívocos da temporada anterior, houve inteligência e competência nas inovações, contrastando com aquela grotesca busca de polêmica estéril, filha da falta de criatividade.

Ça Ira, o espetáculo de abertura, teve acertos (muitos), erros (poucos) e desvios (menos ainda). Unir os dois primeiros atos, para atender a interesses da televisão, acabou se revelando uma boa iniciativa, pois impediu a quebra do ritmo acelerado e cativante do enredo. Em contrapartida, deu aos 50 minutos do terceiro ato um quê de arrastado e lerdo, mero deslindador da trama tecida no primeiro bloco, maior e mais vibrante. A música é, em praticamente todos os momentos, muito boa – e a diversão dos fãs do saudoso Pink Floyd era procurar, especialmente na percussão, ecos do rock praticado pela extinta banda.

Fez falta, também, uma explicação mais nítida sobre o título e o enredo da ópera; bastaria usar a própria canção que lhe dá título, um primor de humor negro e morbidez, tão característicos dos franceses (“Madame Veto avait promis de faire égorger tout Paris, mais son coup a manqué, grâce a nos canoniers”...“dançons la carmagnole, vive le son, dançons la carmagnole, vice le son du canon”); mostrar as cidadãs – freudianamente eufóricas com a iminente degola da detestada rainha, nascida na Áustria, e sua corte – cantando nas ruas, à beira da histeria, “Ça ira, les aristocrates à la lanterne. Ça ira, les aristos on les pendra”.

Mas, nenhum dos senões macula o resultado final; muitos, inclusive, já poderão ser contornados nas récitas seguintes. E mostrar o espetáculo, mundo afora, decerto reforçará o conceito de qualidade e arrojo que sempre caracterizou o Festival Amazonas de Ópera.

E nem as bobagens cometidas em 2007 conseguem abalar essa valiosa reputação.

* Jornalista, especializado em Turismo Cultural.

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