domingo, 24 de janeiro de 2010

A NAÇÃO MARCADA PELA MISÉRIA

Márcio Souza (@)

Quando Jacques Dessalines proclamou a independência, dando um “mau exemplo” a todos os países escravagistas do continente, os Estados Unidos e demais países europeus estabeleceram um bloqueio comercial por 60 anos. Ou seja, as duas primeiras gerações livres do jovem país foram empurradas para a impossibilidade de construir com autodeterminação sua nação, dando início ao processo de fazer do Haiti o exemplo de povo miserável do continente. Ainda assim o povo de Haiti não perdeu a generosidade.

O que as imagens e a compaixão ensaiada dos noticiários da televisão e das matérias dos jornais não mostram sobre o Haiti? Para além da destruição do desespero das vítimas e da evidente pobreza do povo daquele país do Caribe, há o subtexto da miséria, de uma nação que nunca conseguiu escapar das garras do subdesenvolvimento. E mais grave, aparentemente esta condição de país miseráveis parece ser explicada – e aqui e ali surgem vozes que assim o declaram com clareza -, pela composição étnica de seu povo, oriundos da África, de onde foram arrancados como escravos pelos plantadores de cana europeus.

O Haiti, segundo os porta vozes do racismo, como vocalizou o próprio cônsul daquele país em São Paulo, tem um destino manifesto pelo avesso, pois nada se pode esperar em termos de progresso de um povo composto de pessoas negras, que teimam em manter viva sua cultura e religião, a despeito de séculos de massacre colonial. As dramáticas imagens dos efeitos do terremoto de 7 graus na escala Richter, que se abateu no dia 12 passado no país, com cenas de filas da famintos, de feridos com membros amputados, saques, violência, crime e desespero, não conseguem encobrir a situação terrível em que este mesmo povo já se encontrava.

O Haiti, primeiro país americano a libertar seus escravos, depois de uma revolução de escravos, que derrotou tropas francesas e espanholas, nunca teve sossego em sua longa e desgraçada história.

O pastor evangélico eletrônico Pat Robertson declarou que o povo haitiano estava pagando seus pecados, por ter assinado em 1810 um pacto com o diabo para garantir sua vitória contra as forças do colonialismo.

Se isto realmente é um fato, se o grande líder popular do povo da América, Jacques Dessalina, fez um pacto com o diabo para derrotar os franceses em 1803, então esse é um diabo que merece mais respeito que aquele vigarista americano que engana milhões de crédulos.

Desde que o território do Haiti foi cedido pela Espanha para a França em 1697, aquela parte da ilha se transformou numa sucursal do inferno. Portanto, o tal pacto não se deu com algum desconhecido, os franceses católicos e calvinistas já haviam antes introduzido na terra o próprio diabo em todo o seu triunfo, com a brutal importação de mão de obra escrava e com o trabalho intenso e violento que fazia com que um homem jovem, sadio, não durasse mais que seis meses. E não foi por nada que este pedaço de ilha, no século XVIII, foi a colônia mais rica e próspera da França no continente americano, exportando açúcar, cacau e café.

Quando Jacques Dessalines proclamou a independência, dando um “mau exemplo” a todos os países escravagistas do continente, os Estados Unidos e demais países europeus estabeleceram um bloqueio comercial por 60 anos. Ou seja, as duas primeiras gerações livres do jovem país foram empurradas para a impossibilidade de construir com autodeterminação sua nação, dando início ao processo de fazer do Haiti o exemplo de povo miserável do continente. Ainda assim o povo de Haiti não perdeu a generosidade.

Simon Bolívar ali se refugiou em 1815, após fracassar na sua primeira tentativa de expulsar os espanhóis da América. O povo do Haiti o recebeu de braços abertos, deu armas, recursos em dinheiro e homens para a sua luta de libertação, com a condição de que a escravidão fosse abolida nas terras que se tornassem independentes. A promessa não foi cumprida.

Para suspender o bloqueio, o Haiti foi obrigado a indenizar a França em 150 milhões de francos. Os Estados Unidos ocuparam o país entre 1915 e 1934, depois, a partir de 1945, sustentaram no poder o ditador François Duvalier.

Hoje o Haiti é reserva de mão de obra barata das empresas norte americanas. O terremoto foi real, mas a miséria foi construída com anos e anos de injustiças. Tirem o capeta dessa história maldita, aceitem as responsabilidades.

(@) É membro da Academia Amazonense de Letras, dramaturgo, cineasta, autor de Galvez, imperador do Acre; Mad Maria; Expressão Amazonense: Do colonialismo ao neo-colonialismo - e tantos outros com reconhecimento internacional e articulista de A Crítica. marciosouza@argo.com.br

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